segunda-feira, 18 de maio de 2015

cometa poesia

“No ar frio, o céu dourado baixou ao vale, tornando irreais os contornos dos sobrados, da igreja, das montanhas. Saímos para a rua banhados de ouro, magníficos e esquecidos da morte que não houve. Nunca mais houve cometa igual, assim terrível, desdenhoso e belo.” 

Assim registrou em seu diário o pequeno Carlos aos 7 anos de idade, quando e como viu deslumbrado o cometa Halley passar nos céus mineiros de Itabira, em 18 de maio de 1910.

Tempos depois, Carlos, já Drummond de Andrade, publicou em seu belíssimo livro de crônica A Bolsa & a Vida, o texto O Fim do Mundo sobre essa lembrança que marcou a infância. 

Lançada em 1962, a obra em prosa do poeta tem escrita leve, fluente e bem-humorada, e refaz diversos aspectos da realidade brasileira e mundial ao longo dos anos 1950. Já com o olhar adulto, mas igualmente fascinado, Drummond diz que "imaginei que ia presenciar a morte do mundo, ou antes, que morreria com ele. Um cometa mal-humorado visitava o espaço. (...) sua cauda tocaria a Terra; não haveria mais aula de aritmética, nem missa de domingo, nem obediência aos mais velhos. Essas perspectivas eram boas. Mas também não haveria mais geleia, Tico-Tico. (...) Ideias que aborreciam. Havia ainda a angústia da morte, o tranco final, com a cidade inteira (e a cidade, para o menino, era o mundo) se despedaçando – mas isso, afinal, seria um espetáculo. Preparei-me para morrer, com terror e curiosidade."

Drummond retraça o espetáculo desfazendo o vaticínio, o apocalipse anunciado: "O que aconteceu à noite foi maravilhoso. O cometa Halley apareceu mais nítido, mais denso de luz e airosamente deslizou sobre nossas cabeças sem dar confiança de exterminar-nos."

Na foto abaixo, o cometa riscando o céu andino de Arequipa, cidade peruana. Deveria ter acabado de passar no sertão verde de Itabira, e o menino Drummond já no seu caderninho-diário, "protocolando" o poema que ficou em seus olhos.

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