terça-feira, 26 de março de 2013

Baker


Duas excelentes obras sobre o grande trompetista e cantor de jazz Chet Baker: a biografia "No fundo de um sonho - A longa noite de Chet Baker", escrita pelo jornalista James Gavin, publicada em 2002, e "Let's Get Lost", documentário dirigido por Bruce Weber. 

São referências definitivas sobre Baker. Nas páginas de um, nas imagens do outro, se se conhece a música do ícone do jazz cool, impossível não se emocionar com os relatos, os depoimentos, as entrevistas. 

No filme, concluído um ano antes de sua morte em 1988, aos 58 anos, o diretor grava longos planos de um Baker mais introspectivo do que se sabia. O seu olhar distante, o mergulho em suas dores. A câmera parece não estar ali. O cineasta e o músico eram amigos, e isso rendeu a intimidade necessária para extrair a mais verdadeira fala, o mais sincero silêncio.

quarta-feira, 20 de março de 2013

nosso choro de Nazareth

O pesquisador musical Luiz Antonio de Almeida, 51 anos, trabalhou 30 anos na biografia do pianista e compositor Ernesto Nazareth (1863-1934). O livro está pronto há sete e ainda não foi publicado por total desinteresse das editoras.

Essa informação está na ótima reportagem de capa do caderno Diversão&Arte, edição de hoje do Correio Braziliense. Um dos nossos maiores músicos faria 150 anos nesta quarta-feira. Autor de clássicos que estão no nosso imaginário, como "Odeon", "Apanhei-te cavaquinho", "Brejeiro", "Dengoso", Nazareth é de importância fundamental na história da música brasileira, influenciou gerações, como o exímio violista gaúcho Yamandu Costa, 33 anos, que fez uma definição precisa do mestre: "ele mistura o suingue negro com a música europeia, e daí sai o choro, essa linguagem que caracteriza o nosso povo."

Do que foi publicado sobre o grande compositor, autor de mais 300 canções, conheço o livro de Haroldo Costa, "Ernesto Nazareth - Pianeiro do Brasil", 2005, e o de José Miguel Wisnik, “Machado Maxixe”. In: Sem receita – Ensaios e canções", 2004.
Pelo li na matéria do Correio, creio que o inédito de Luiz Antonio de Almeida, seja a biografia definitiva do compositor, que teve um fim de vida trágico, aos 70 anos.

domingo, 17 de março de 2013

a vida é um sopro

"Imaginação e realidade têm pouca coisa em comum."

Fala da personagem Anne, magnificamente interpretada por Emmanuelle Riva em "Amour", roteiro e direção de Michael Haneke.

Quem assistiu ao filme sabe a essência do que isso significa, o que representa no seu contexto. Amor e morte. Assim como "Amour", o belo filme do austríaco Haneke poderia intitular-se "Morte". Imaginação e realidade. Poucas coisas em comum entre as duas. Diante da incômoda certeza de uma, a vida é uma imaginação, abstrata, fluida, passageira, um sopro, como dizia Oscar Niemeyer - ele, que burlou a dita cuja por mais de um século.

O filme de Haneke mostra um casal de octagenários no crespúsculo de suas vidas. A doença degenerativa de um torna-se o enlace maior entre ambos, fortificado pelo amor.
E o amor, creio, é incondicional por definição. Quando Anne diz ao marido, em atuação marcante de Jean-Louis Trintignant, que ele deve estar cansado de cuidar dela, do sofrimento infrigido pelas circunstâncias, o marido rebate que não, claro. Mas a câmera de Haneke penetra o interior do personagem, adentra sua alma, e a leitura é outra, pelo olhar, pelo semblante, pela verdade - mais do que pela imaginação. Há o cansaço, mas há o sentimento de predisposição sincero.
Esse é o grande valor de um filme talentoso, de um grande Cinema. O que o olhar da câmera expõe, o que supostamente não está enquadrado. O Cinema sugere o que é fato, o que existe, o que pulsa.

Na abertura de "Amour", o espectador vê a plateia de um teatro à espera do início de um concerto de piano. Câmera fixa no auditório, do ponto de vista do palco. O pianista entra, cumprimenta o público, aplausos de recepção, e começa a música. Rostos atentos, ouvidos abertos. Não há um contraplano do músico chegando, saudando os ouvintes, sentando-se no banquinho, teclando o piano. E nem precisa. Nós vemos tudo isso através do olhar da plateia. O Cinema bem feito permite essa conexão, essa cumplicidade. O Cinema é voyeur.

E assim é toda a narrativa do filme: minimalista em gestos, no desenho de câmera, nos diálogos. E consequentemente grandioso em expressões, significados, questionamentos humanos. Haneke trata o assunto com poesia, com doçura, com o tato das retinas. O que é perverso, cru, implacável, é a verdade do tema, não o tratamento. Podemos discordar do final, da atitude extrema do marido, mas não se pode deixar de compreender o ato. Uma coisa pode não justificar. Mas uma outra coisa pode explicar.

E o que não se justifica, nem mesmo explicações convencem, é Emmanuelle Riva não ganhar o Oscar de Melhor Atriz, e receber uma atrizinha inexpressiva de um filminho idiota.
Imaginação e realidade têm mesmo pouca coisa em comum. Nesse caso, nada.

quarta-feira, 13 de março de 2013

um tango atravessado

O cardeal argentino Jorge Bergoglio, ou seja, o novo Papa, Francisco I, foi denunciado em 2005 na Justiça argentina por supostas ligações com o sequestro de dois missionários jesuítas em 1975 durante a ditadura.
A denúncia se baseou em artigos jornalísticos e no livro "Igreja e Ditadura", de Emilio Mignone.

E aí, Francisco?

seis por meia dúzia

O que se mandou e o que vai mandar.

segunda-feira, 11 de março de 2013

o passado

foto Lyubomir Bukov

"O passado é minha única certeza"
Do jornalista Alessandro Porro, em seu livro "Memórias do meu século - Lembranças de um corsário ingênuo", lançado pela Ediouro em 2001.