quinta-feira, 29 de novembro de 2012

chame o síndico!

"Tira essa escada daí / essa escada é pra ficar aqui fora / eu vou chamar o síndico / Tim Maia!"

Trecho de "Alô, alô, W/Brasil", de Jorge Ben, um jogo de frases desconexas, com versos que não dizem nada com nada, mas que sugerem imagens do dia a dia da periferia carioca e é um funk ótimo de ouvir, cantar e dançar.

E a história de como cantor compôs tinha que partir de uma inspiração maluca mesmo: numa festa de confratização de fim de ano da agência W/Brasil, lá no começo dos anos 90, o publicitário Washington Olivetto, depois de vários uísques, lançou a candidatura de Tim Maia para síndico do Brasil. Pronto! Em 92, Jorge Ben aparece com a música no LP "Live in Rio". Desse disco duplo é a única inédita, e juntamente com o "revival" dos grandes sucessos, trouxe o rebatizado Ben Jor às, como se dizia, paradas de sucesso.

Outro fato curioso é que, tempos depois, foi lançado no jornal O Globo um "concurso" para escolher a letra mais esdrúxula da música brasileira. "W/Brasil" ganhou o terceiro lugar, o segundo, "Codinome Beija-flor" (talvez pelos "segredos de liquidificador"...), e o primeiro "Refazenda", de Gilberto Gil, que recebeu o troféu Zum de Besouro. Sacaram a sutileza? Aliás, injustiça com Djavan: ele merecia o troféu pelo conjunto de letras de sua obra... Pois é, não chamaram o síndico pra organizar o certame.

domingo, 25 de novembro de 2012

o último dos poucos

Em 1993 assisti a um dos últimos shows de Sérgio Sampaio (1947-1994), no bar Feitiço Mineiro, aqui em Brasília. Foi uma satisfação realizada ver, ouvir e falar com um dos artistas que mais admiro. Um dos meus queridos anjos tortos. Entreguei-lhe um poema de paixão escrito ali num guardanapo, respingado de caipirinha e algumas furtivas lágrimas de alegria. Ele autografou o seu primeiro elepê que levei, admirado e surpreendentemente tímido. Não imaginaria que partiria no ano seguinte. Ninguém imagina esses incômodos, principalmente de quem se ama.

No show de Luiz Melodia em Brasília, quarta-feira passada, ele cantou muito especialmente uma das belas canções de Sérgio Sampaio, a confessional "Que loucura". Emocionante. Os dois eram grandes amigos. Para ele, Sérgio compôs "Doce melodia", na verdade criada e cantada por eles, gravada no excelente álbum "Sinceramente", que o cantor capixaba gravou em 1982.

Sérgio Sampaio, aquele que queria botar o bloco na rua, nunca fez concessão às exigências e burrice de alguns setores da música brasileira. Anos-luz à frente de muitos, com sua música e letras que são verdadeiros poemas.

Íntegro, não se entregou: morreu de parabélum na mão.

sábado, 24 de novembro de 2012

o pérola negra

 foto Cristina Pereira

O show de Luiz Melodia aqui em Brasília, quarta-feira, 22, para uma enorme Sala Villa-Lobos lotada, só ele com sua voz única e belíssima, e o violão-orquestra do Renato Piau, foi um dos melhores que vi este ano. O cara está impecavelmente jovem aos 61 anos. Simpático, carismático, e cantando todas as pérolas negras que estão na nossa memória. E sem aquele clima retrô. O eterno tem disso: está sempre chegando.

elegia pra Amy

"Como encadernação vistosa, feita para letrados, a mulher se enfeita, mas ela é um livro místico..."

Recorrendo ao poeta jacobino John Donne, via tradução de Augusto de Campos, e minha ousadia de mexer na letra em nome da elegia...

nem toda couve é flor

Uma idiota faz uma cirurgia íntima para diminuir o tamanho da sua "couve-flor", com restrospectiva de outras descerebradas que fizeram, e isso é assunto nacional, manchetes nas páginas da internet, papo de metrô lotado e fila de banco... deve ser por falta de "assuntos melhores" porque uma tal novela que substituiu outra ainda não salvou a audiência...

É, meu caro Stanislaw Ponte Preta, este brasilzim continua com o Festival de Besteira Que Assola o País que você infelizmente vaticinou.

Toca Raul! "Ô, ô, seu moço do disco voador / me leve com você, pra onde você for..."

terça-feira, 20 de novembro de 2012

licença poética

foto Farrokh Chothia

Há poemas que leio e que gostaria muito de tê-los escrito. Um deles é este aí embaixo, "Fascínio", de Affonso Romano de Sant'Anna, casadíssimo com a escritora Marina Colasanti.

Casado, continuo a achar as mulheres irresistíveis.
Não deveria, dizem.
Me esforço. Aliás,
já nem me esforço.
Abertamente me ponho a admirá-las.
Não estou traindo ninguém, advirto.
Como pode o amor trair o amor?
Amar o amor num outro amor
é um ritual que, amante, me permito.

Considero Affonso Romano um dos legítimos representantes da literatura brasileira contemporânea. Autêntico no que escreve, é rigoroso na construção dos versos, com um olhar crítico sobre os problemas e perplexidades do nosso cotidiano, e uma lírica admiração sobre o belo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

um homem lúcido

Que notícia chata recebo agora... morreu ontem à noite, aos 67 anos, um dos homens mais inteligentes que conheci: o dramaturgo Alcione Araújo.
A palestra que ele deu na 1ª Bienal do Livro, aqui em Brasília, em abril passado, foi uma exposi
ção de pensamento lúcido, antenado com os problemas da sociedade atual. Não somente eu, mas toda o público presente não se conteve em aplaudí-lo durante sua fala. Até mesmo o escritor Mária Prata, seu colega de mesa naquele dia, levantou-se para abraçá-lo.
Eu já conhecia Alcione pelos textos teatrais e de entrevistas. E estivemos juntos pela primeira vez em 1991, em São Paulo, no 3º Taller de Guion, na Verbo Filmes, quando coordenou as oficinas de roteiros para cinema do Brasil, Argentina, Colômbia e Venezuela. As observações que ele fez ao roteiro do meu curta "O último dia de sol" foram extremamente importantes. As modificações que fiz e o que levei em definitivo para o set de filmagens melhoraram bastante o trabalho, como a retirada de uma sequência de flashback.

Encontrei-me depois poucas vezes com Alcione, em festivais de cinema e eventos literários. Este país já está tão carente de pensadores, e quando se vai um talento como Alcione Araújo, cai-se no lamento repetitivo da orfandade.

a contagem de Mona

A criança fofinha da foto é a autora do livro "Contagem Depressiva", Simone Gadelha, hoje a compositora e cantora sem o si e sem o chapeuzinho no sobrenome: Mona Gadelha, minha conterrânea, amiga, gente com residência no lado esquerdo do meu peito.

Esse é o primeiro livro dela, de 1980, feito artesanalmente, ali na raça, com aquela impressão gráfica bem rústica, como um mimiógrafo melhorado, com uma tiragem limitada. Gosto muito dessas publicações. Sempre têm histórias interessantes.

E minha história com esse livro é marcante. Primeiro, me pegou pelo título, esse trocadilho que provoca reflexões, digamos, existenciais. E isso é bem característico de uma certa época de inquietações nas nossas vidas. Depois esses desassossegos aos poucos são "civilizados"... ou sucubimos de vez. Na época do lançamento do livro, em Fortaleza, eu não tinha tanta proximidade com a Mona. Até onde eu chegava a ela, era diametralmente oposto à minha admiração. Mona cantava blues, Mona encantava rock, Mona sorria canções. E conjugo os verbos no presente.
Não consegui o livro e li através de um amigo, numa tacada só, no hall no Cine Center Um, antes de uma sessão de Cinema de Arte. Os textos pra mim são misturas de contos e crônicas, escritos que dissecam amores, desamores, esperanças.

Outro dia conversando via Facebook com Mona, disse-lhe que faltavam alguns cds dela no meu escaninho emocional, e comentei do livro. E ela mandou os discos e um dos poucos raros exemplares que lhe restam.

Valeu a contagem regressiva!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

uma composição brasileira

"Aprendemos com a classe média | que vida vira um tédio | sem a televisão..."

Trecho da música "Somos uns compositores brasileiros", do disco "O azul e o encarnado", de Ednardo, de 1977. Quando foi la
nçado eu não tinha grana pra comprar o vinilzão. Passava pela loja Tok Discos, no centro de Fortaleza, e ficava babando esse e outros discos que chegavam e tocavam me torturando a frustração. Mas consegui poupar uns cruzeiros reservados para o cinema e comprei a fita K-7, que era bem mais barato, claro. Que maravilha! Ouvia direto no toca-fitas CCE. E pra economizar pilhas Rayovac, voltava a fita com caneta Bic quando queria ouvir uma música novamente. É o caso dessa faixa, a quarta do lado A, ou como estava lá no K-7, Programa 1.

O disco todo é muito bom: abre com "Está escrito", segue com "Pastora do tempo", onde tem a participação do Fagner, e vai com "Boi mandigueiro", vira pro Programa 2 com "Receita de fellicidade", "Como é difícil não ter 18 anos"... é, Ednardo, é difícil não ter mais essa idade... "meus vinte anos de boy, that's over, baby", como diz Zé Ramalho em "Chão de giz", em seu primeiro LP, de 1978.

Em 2001 "O azul e o encarnado" foi lançado em cd, pela BMG. Mas o que quero mesmo é comprar o vinil, que vivo vasculhando em sebos por aí.

Ah, na época achava essa rima meio forçada, "média" com "tédio", mas depois entende-se a proximidade dos sons das palavras, e a rima chega pela intenção, pelo recado. Como diz lá final da canção, "like you, sua voz", Ednardo, meu caro compositor brasileiro.

sábado, 10 de novembro de 2012

a vida como ela é

A atuação da atriz Simone Spoladore é um dos pontos mais fortes da peça "Depois da queda". Escrita por Arthur Miller, mostra o relacionamento do escritor com Marilyn Monroe, casados por cinco anos. Se Miller fez uma espécie expurgação no texto escrito dois anos após a morte da atriz, revelando o conturbado relacionamento com a sex symbol, Spoladore soube dissecar e, de certa forma, desconstruir o mito, expondo no palco a fragilidade de uma artista depressiva, insegura, autodestrutiva. Mesmo com todo o glamour que Marilyn impõe ao longo do tempo em que estamos acostumados a vê-la e idolatrá-la, a construção dramática da excelente atriz curitibana, sem retoques de Andy Warhol, não poupa o lado verdadeiro e humano da personagem, sem deixar de mostrar, claro, a Marilyn carismática, sedutora e ingênua.


Se há um problema na peça é sua duração de quase três horas. O primeiro ato, onde são apresentados o perfil e a história de Miller, é desnecessário. Quando Marilyn entra no final da primeira parte, a peça poderia começar daquele momento. Miller não perderia valores de sua descrição. Ele por si está ali contruído. Ele como fio condutor da peça, dispensa maiores apresentações. Marilyn já vem com outra Marilyn, e Spoladore, linda, diáfana, com seu olhar pisciano, está lá para apresentá-la, com toda crueza e sinceridade necessárias. 
Em cartaz no CCBB Brasília, o pecado mora ao lado até amanhã, dia 11.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Vil metal. Por isso, vil

"Eu aprendi / a vida é um jogo / cada um por si / e Deus contra todos / você vai morrer / e não vai pro céu / é bom aprender / a vida é cruel / homem primata / capitalismo selvagem"
(Titãs)

"E desde então eu vivo / com meu banjo / executando os rocks do meu livro / pisando em falso / com meus panos quentes / ... / enquanto você fala entre dentes / poeta bom é poeta morto..."
(Zeca Baleiro)

"Mas é preciso viver / e viver não é brincadeira não / quando o jeito é se virar / irmão desconhece irmão / aí dinheiro na mão é vendaval / dinheiro na mão é solução / e solidão"
(Paulinho da Viola)

"E hoje eu sei / que quem me deu a ideia / de uma nova consciência e juventude / está em casa guardado por Deus / contando os seus metais"
(Belchior)

"Imagine no possessions / I wonder if you can / no need for greed or hunger"
(John Lennon)

"Pois cantando neste mundo / vivo escravo do meu samba / muito embora vagabundo"
(Noel Rosa)

"O dinheiro não compra felicidade, mas compra uma imitação tão perfeita, que a gente chega a acreditar."  
(Maria Bethânia)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012