terça-feira, 30 de outubro de 2012

a sustentável leveza do ser

Essas esculturas são feitas de ferro fundido, pesadíssimas, penduradas por cordas de aço. Mas a sensação que passa é de leveza, como se flutuassem. Não consigo falar muito sobre a curiosíssima exposição Corpos Presentes - Still Being, do britânico Antony Gormley, no CCBB Brasília. Há uma admiração silenciosa em mim com que vi.

Dividida, aliás, expandida em cinco ambientes, o corpo humano masculino apresenta-se nas mais diversas formas imaginadas pelo artista. O molde é o seu próprio corpo. Gormley consegue com a dureza da matéria prima expressar o interior do corpo, ou o que seria a essência que respira, pois segundo ele "não se pode tocar o corpo sem considerar a alma". Há na exposição algumas fotos do processo de confecção das esculturas. O que se vê nas imagens de bastidores são várias pessoas trabalhando com ferros de soldar a gás, como numa oficina mecânica. Mas isso não desmitifica o impressionante trabalho. As expressões corporais, os contornos anatômicos são de uma dramaticidade perfeita, convincente, que dialogam com o nosso olhar atento.

As esculturas de tamanho real, denominadas Critical Mass II, as que mais me impressionaram, e liberadas para o visitante fotografar, estão expostas em um enorme galpão aberto do CCBB, que parece construído para essa finalidade.

E eu que achava que não conseguiria falar sobre o que achei, falei. O corpo fala, não tem como calar.

como nos filmes

O presidente Obama, que já enfrenta o furacão republicano Romney, protege-se com seu figurino de Neo, de Matrix, do furação Sandy devastando como nos filmes... Que tudo passe logo, que não seja tão arrasador quanto em Hollywood.

Raul rock Seixas

"Há muito tempo atrás na velha Bahia / eu imitava Little Richard e me contorcia / as pessoas se afastavam pensando / que eu tava tendo um ataque de epilepsia".
O bom e eterno Raulzito dos Santos Seixas, na faixa de abertura de seu último vinilzão, "A panela do diabo", que ele gravou com o também ótimo Marcelo Nova, lançado em 1989, ano em que ele partiu na sombra sonora de um disco voador.

Das doze músicas, oito foram compostas e cantadas pelos dois, inclusive a citada, "Rock'n'roll", num dueto que expressa o saudável encontro do conterrâneo admirador e seu ídolo. Essa letra é uma maravilha de curtição nos rockzinhos que surgiram na década de 80. A dupla reverencia o rock-and-roll genuíno, e ousa dizer que "nunca vi Beethoven fazer / aquilo que Chuck Berry faz". Nem o banquinho e o violão bossanovista escapa, "bosta nova pra universitário / gente fina, intelectual / oxalá, oxum, dendê oxossi de não sei o quê".

Mas Raul não é bobo, sabe onde cutuca, onde tem raiz no tronco de outro, "não importa o sotaque / e sim o jeito de fazer / pois há muito percebi que Genival Lacerda / tem a ver com Elvis e com Jerry Lee"

os furacões de Obama

O presidente Obama, que já enfrenta o furacão republicano Romney, protege-se com seu figurino de Neo, de "Matrix", do furação Sandy devastando como nos filmes... Que tudo passe logo, que não seja tão arrasador quanto em Hollywood.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

livros todos os dias

Hoje é dia do Livro. Pra mim todos os dias são uma imensa biblioteca. Aqui e além. Como Jorge Luis Borges, "sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de livraria".

outro cinema

Não dou chance, sou implacável com o cinemão hollywoodiano babaca, vazio, beligerante, dopante, alienado e alienante, e fico empolgado com cinematografias tortas e com sangue nas veias, como o novo cinema asiático, por exemplo, por um bom exemplo.
Amanhã começa no CCBB Brasília, a Mostra de Cinema Coreano, com exibição de cinco filmes de uma nova geração de cineastas, como Kim Dal-Joong e Kang Hyong-Cheol. Uma safra quentinha, pulsante, produções de 2007 a 2012, que sabem tratar com inteligência e sensibilidade temas tão variados que vão de relações pessoais e familiares à culinária, passando por questões sociais.

A entrada no CCBB é 0800. Nem estacionamento paga. Mais do que fazer propaganda do local, divulgo o bom Cinema. A direção do espaço até deveria melhorar o atendimento ao público cativo, revendo algumas regrinhas chatas, como horário para pegar senhas, ampliar os horários de ônibus gratuitos para os que não têm carros, e outras coisas mais. É só dar ouvidos às reclamações, responder às questões que são depositadas pelos frequentadores naquela urninha de acrílico.

sábado, 27 de outubro de 2012

Regina Dourado

Meu primeiro trabalho como fotógrafo de cena de um longa-metragem foi em "Tigipió - Uma questão de honra", de Pedro Jorge de Castro, 1982. Uma experiência fascinante, desafiadora, provocante. Aprendi muito. É uma atividade diferente dentro de um set de filmagens.

Conviver com os atores e a equipe técnica é um dos fatores marcantes. Tenho boas lembranças e a amizade continuou com José Dumont, B. de Paiva, Ricar
do Guilherme, João Falcão, Regina Dourado... E é da sorridente e talentosa Regina Dourado que hoje me lembro com saudades ao ler sobre sua morte. De repente vem tudo como num filme rebobinado... nossas conversas nos intervalos, seu carinho e atenção quando eu pedia pra repetir uma posição para uma foto, nossos reencontros em outros filmes, seus pratos saborosos quando estive no Rio, sua gargalhada, sua alegria... Só a revi uma vez depois que adoeceu, num festival de cinema em Fortaleza, quando mais uma vez me falou de como gostava muito do cartaz do filme, feito a partir de minha foto. Ela se orgulhava do seu rosto estampado, do momento exato que captei a sua emoção numa das cenas mais importantes. Eu também fico orgulhoso pela oportunidade que você me deu, Regina. Você é que me dá muito cartaz. Olha aí. Um beijo, querida.

sábado, 20 de outubro de 2012

nem todos verão

Para quem mora da Bahia pra baixo, começa hoje o incômodo e incoerente horário de verão. Bagunça tudo, altera o relógio biológico de todos, e é uma crueldade com as crianças que não conseguem e nem entendem porque tem de acordar uma hora antes. E os baianos este ano ficaram livres desse chatice.

Quando o organismo já está "se adaptando", quatro meses depois, volta o horário normal. E nova adaptação nos afazeres cotidianos. 

É nesse período que me dá vontade de voltar pro meu Ceará, que não tem horário de verão e é verão o ano inteiro.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

coeur d'Emmanuelle

O filme que considero mais erótico é “Emmanuelle”, de Just Jaeckin, produção francesa de 1974. Ao contrário da avalanche de filmes pornográficos que foram lançados no Brasil com liberação da censura no final dos anos 70, a produção francesa trazia outros conceitos para o gênero. Estreou em telas brasileiras em 1978.

“Emmanuelle” tinha de tudo em termo de sexo e suas possibilidades de explorar o máximo do prazer: sexo a dois, a três, a quatro, sexo em avião (que depois ficou conhecido como “mile high club”), masturbação, a técnica de pompoarismo que mostrava uma vagina fumando um cigarro, etc etc etc . Tudo isso sem sexo explícito e em estilo requintado, ambientes exóticos, mulheres lindas, homens sedutores, locais paradisíacos, trilha sonora com gemidos composta por Pierre Bachelet, e uma historinha para justificar tantas sacanagens.

“Emmanuelle” mexeu com 50 milhões espectadores no mundo inteiro por conta desse erotismo “soft” que provocava a imaginação e cutucava os desejos mais reprimidos nos homens e mulheres. “Soft” , mas direto, sem arrodeios, sem muitas palavras e pouca roupa, com uma “tese” muito segura sobre uma visão do sexo fora dos padrões.

A atriz holandesa Sylvia Kristel, que morreu hoje aos 60 anos, encarnou com perfeição a Emmanuelle que existe nas mulheres e que os homens desejam, pelo menos assim o filme provocava uma discussão no subtexto. A atriz escolhida não tinha nenhum protótipo de mulherão, de gostosa... E isso nunca foi necessário nem condição para definir beleza feminina e sensualidade. Esse poder está na essência do eterno feminino, na volúpia de sua sexualidade natural, única.

O filme teve sequências muito ruins, fazendo uma variação equivocada do primeiro, partindo para o explícito mesmo e fim de papo. Sylvia Kristel fez dezenas de outros filmes, inclusive retomando Emmanuelle como referência, e, de certa forma, ficou marcada pela personagem criada ainda no final da década de 50 pela escritora Emmanuelle Arsan. Não, não sei se existe algo de biográfico entre uma e outra. Sei que tem entre todos nós. Ou não?

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dom Fragoso

Eu era muito garoto, mas lembro-me muito bem quando o paraibano Dom Antonio Batista Fragoso chegou em Crateús. Não esquecerei daquele homem sorridente, vindo da estação de trem, caminhando pela rua principal acompanhado de uma multidão, que lhe dava boas-vindas. Uma cena de filme neo-realista italiano gravada nas minhas retinas. Um fragmento de um exemplar dirigido por De Sicca, Pietro Germi... ali na minha rua.

Naquele começo dos anos de chumbo, exatamente em 1964, ele desembacava na pequena cidade no interior do Ceará, como 1º Bispo Diocesano, e iniciaria sua luta pelos direitos dos excluídos durante o regime militar. Até 1998, a passagem de Dom Fragoso em Crateús é marcada pelos ensinamentos para quem conviveu ao seu lado, pela experiência na organização dos trabalhadores rurais em sindicatos e nas Comunidades Eclesiais de Base. Foi perseguido pelos militares, preso em 1968, vigiado e hostilizado pela hipocrisia da sociedade conservadora com seus ternos de linho branco no calor do sertão.


Para contar a vida desse brasileiro, o cineasta Francis Vale realizou o documentário longa "Dom Fragoso", que será exibido pela primeira vez aqui em Brasília, amanhã no Centro Cultural de Brasília, 601 Norte, às 19h30, entrada franca, com a presença do diretor para um debate após a sessão. O filme faz parte do evento semanal Cine-Fórum, insere-se na programação de comemoração dos 50 anos do Concílio Ecumênico Vaticano II, onde já foi exibido no começo do mês outro bom filme, "Dom Helder, o santo rebelde", de 
Érika Bauer.

A quem interessar possa, mais informações no site do CCB:
http://migre.me/b9XH5

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

bate outra vez

Há 104 anos que as rosas falam na música brasileira. 

O mundo é um moinho, mas meu coração sempre bate outra vez com esperança quando ouço Seu Agenor.

A benção, mestre. Tiro minha cartola para você.

vento no litoral


Uma das mais belas canções da música brasileira. Letra e música. Aonde está você agora, Renato Russo, além aqui dentro de mim... 

Sua canção me conforta. Quando vejo o mar, existe algo que diz que a vida continua..

sempre por enquanto

Ele cantava que o "pra sempre sempre acaba". Nem tanto, Renato Russo. Não é sempre assim. Eu sei que alguma coisa aconteceu, está tudo assim tão diferente depois que você se mandou pra via-láctea... Sempre existe um caminho, sempre existe uma luz. Hoje faz 16 anos daquele anjo triste perto de você. Mudaram as estações nesse dia. Sua música ficou por aqui, e quando ouço só penso em você.

Minha música favorita é "Vento no litoral", faixa 7 do disco "V". Se você não tivesse criado tantas canções belíssimas, e tivesse feito somente essa obra-prima, já teria valido tudo por aqui. Ver a linha do horizonte me distrai.

Olho essa sua foto, adolescente urbano nos tempos do "Aborto Elétrico" aqui em Brasília, e lhe desconverso dizendo que o pra sempre nem sempre acaba. Olha só o que achei... cavalos-marinhos.

sábado, 6 de outubro de 2012

um dos 1001 discos que escuto enquanto viver - 0001

Acho essa capa horrível, Caetano tá feio com essa moita e essa barbicha. Mas tem o olhar atlântico, distante, e o disco é belíssimo.

Tenho o bolachão, de 1971. É o terceiro álbum do baiano,
gravado em Londres, e as músicas refletem bem o estado de espírito de um exilado naquela cidade cinza, longe de sua Bahia, de um Brasil dominado por uma ditadura militar, enfiando goela abaixo no povo um país tricampeão de futebol para abafar os gemidos no porão. Nada estava tão divino e maravilhoso.

As letras do disco são tristes, melancólicas, cheias de espanto e saudade. E de uma beleza poética e melódica singulares. "London, London", a faixa mais conhecida, traduz bem o espírito de um artista saudoso. Caetano descreve, ou descreve-se, em um passeio pelas ruas da capital inglesa, "I'm wandering round and round, nowhere to go", vagando, dando voltas sem direção, sem ninguém pra dizer olá, "I know I know no one here to say hello", e a vontade de voltar pra sua terra faz com que imagine discos voadores que o levassem de volta, "while my eyes go looking for flying saucers in the sky". A sua versão tão interiorizada de "Asa branca", dos mestres Gonzagão e Humberto Teixeira, tem a mesma expressão dessa saudade de todos seus santos amaros, da risada de Irene, do abraço de Bethânia, do colo de Dona Canô.

Ave, Caetano.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

ou Eric ou nada

A morte do historiador Eric Hobsbawm foi uma notícia que me deixou triste neste começo de outubro. O grande intelectual inglês soube como poucos viver e dissecar tão bem o pensamento esquerdista, apontando claramente as esperanças e os horrores da ideologia. De uma lucidez impressionante em suas análises, ele explicava suas convicções à época quando abraçou a crença na formação das ideias marxistas, dizendo "era isso ou nada".

Li agora nos jornais que, segundo o historiador Donald Sassoon, seus livros venderam mais no Brasil que em qualquer lugar do mundo. Bom saber disso.
Sua obra é extremamente necessária para uma compreensão destes tempos controversos. Mas é muito bom conhecer Eric Hobsbawn através da autobiografia "Tempos interessantes", publicada em 2002.
Eu, admirador tão perto e distante desse mestre, não à toa, ou inconsciente, comecei o mês com a postagem abaixo: outubro ou nada.

outubro ou nada!