quinta-feira, 23 de agosto de 2012

o anjo pornográfico

"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico(desde menino)."

Há 100 anos nascia Nelson Rodrigues, o maior dramaturgo brasileiro. Sua peça "Vestido de Noiva", de 1943, com a direção ousada de Zbigniew Ziembiński, trouxe uma renovação nunca vista no teatro brasileiro.


Implacável cronista da mediocridade pequeno burquesa, Nelson tinha um humor ferino em suas frases geniais. Contraditório, mas íntegro em seus pensamentos, ele veio para chacoalhar a obviedade ululante.

Ouça-me bem, amor, preste atenção, o mundo é um moinho...


terça-feira, 21 de agosto de 2012

toca Raul!

                               foto Kika Seixas
Assisti a todos os shows do Raul Seixas. Pelo menos os que passaram onde morei e moro. E no final dos anos 70 saí de Fortaleza pra Salvador num ônibus da Itapemirim pra assistir a um show do maluco beleza na Concha Acústica da capital baiana. Aqui em Brasília não perderia por nada a apresentação que ele fez no dia 8 de março de 1989, no antigo Gran Circo Lar, onde hoje está a nave branca do Museu da República. Raul e Marcelo Nova faziam turnê para divulgar o disco "Panela do diabo" (foto). Ele estava visivelmente debilitado, a voz trêmula, mas o mesmo brilho de um grande artista.

Ele voltou a Brasília em agosto para um show no Ginásio Nilson Nelson. Eu perdi, estava viajando. Foi a última apresentação do Raulzito. Nove dias depois ele partiu na sombra sonora de um disco voador.

23 anos hoje sem a mosca na sopa. Como ele dizia, "é preciso cultura para cuspir na estrutura".

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

pensar e olhar

As pessoas não olham muito. As pessoas pensam muito. E isso não é a mesma coisa, dizia o grande fotógrafo Henri-Cartier Bresson.

Ontem, dia 19 de agosto, há exatos 173 anos, foi anunciado e apresentado ao mundo em Paris o p
rimeiro dispositivo fotográfico, desenvolvido por Louis M. Daguérre. Não creio que a Fotografia tenha sido inventada por uma única pessoa. Foi resultado de vários processos, descobertas e invenções, passos decisivos de grandes nomes como Joseph Nicéphore Niépce, Fox Talbot, Hércules Florence...

Por um tempo trabalhei como repórter fotográfico no jornal O Povo, em Fortaleza, fui técnico em audiovisual na Secretaria de Cultura do Estado, fazia fotos de shows, stil em filmes, exposições, e vivia com minha primeira Olympus Trip a tiracolo. Mas nunca me considerei fotógrafo, nunca tive muito disposição pro escurinho avermelhado do laboratório. Era mais um olhar, uma forma de pensar, não exatamente uma profissão que eu quisesse seguir. Ou, uma tese que me explicava melhor, um caminho que me levava ao Cinema, minha grande paixão.


À todos os amigos grandes fotógrafos, o meu clic pela Dia Internacional da Fotografia:Mercedes Lorenzo, Galba Sandras
,Silas de Paula, Nely Rosa, Jose Rosa Filho, Marcos Vieira,Lília Moema Santana, Walter Ney, Celso Oliveira, Thiago Santana, José Rosa, Marcos Guilherme,Drawlio Joca, Mauricio Albano, José Albano, Jarbas Oliveira... e em especial, muito especialmente mesmo, ao meu sobrinho Rubens Venancio, que herdou essas lentes de olhar e revelou a sua mais sincera gratidão como grande fotógrafo.

domingo, 19 de agosto de 2012

mestres da guitarrada

Pegue o carimbó, o merengue, o maxixe, a cúmbia, a lambada, uma guitarra, percussão e até um banjo, junte isso tudo nas mãos de talentosos músicos paraenses e o resultado é contagiante, dançante com sabor de açaí, tacacá, tucupi. Música regional e universal na sua mais completa tradução.

O projeto Invasão Paraense apresentado no CCBB Brasília de 3 a 18 deste mês foi uma das melhores programações musicais que passou por aqui. Na sexta-feira fiquei arrebatado, por assim dizer, com o show de Mestre Curica e Mestre Aldo Sena. O primeiro é conhecido por inserir o banjo na música amazônica. E o tempero funciona. Seu desempenho no palco prova o título de mestre como reconhecimento popular do gênero guitarrada. Mas o que me impressionou foi a habilidade de Aldo Sena na guitarra. A mim e a todos no teatro, quando uma multidão se aproximou do palco para cumprimentá-lo no final. Solos harmoniosos saem do seu instrumento, executado com a precisão, tranquilidade e segurança de quem sabe muito bem o que faz. Aldo revezava sua atenção nas cordas elétricas e os olhos na plateia igualmente eletrizada. Seu olhar era de satisfação em ver e comprovar o quanto ele é bom. Sem pedantismo, com simplicidade. Não "convencido", mas consciente. Merece todas as palmas e elogios. Um dos melhores momentos foi a execução de "The millionaire", pop instrumental dos anos 60 de Mike Maxfield, da banda inglesa The Dakotas, que ficou conhecido no Brasil pelo grupo Os Incríveis.

Enquanto isso, lá fora só conhecem deste Brasil brasileiro bobagens de não sei quem que quer pegar não sei quem.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

cineasta Sérgio Silva

Leio agora no Blog de Cinema do Diário do Nordesde sobre a morte do cineasta gaúcho Sérgio Silva. Ele dirigiu em 1997 "Anahy de Las Missiones", um dos filmes mais importantes sobre um período da História brasileira, a Guerra Cisplatina, pouco estudada, pouco lembrada. 

O blog para o jornal cearense é redigido pelo louco por cinema Ailton Monteiro, que está no Rio Grande do Sul acompanhando o 40º Festival de Cinema de Gramado. Ailton é também autor do Blog Diário de um Cinéfilo.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

nosso choro pelo chorinho de Altamiro...

foto Gilson Abreu

com todo o canto

                                  foto Áurea Liz Carvalho 
A cantora e compositora Lhasa De Sela nasceu em Nova Iorque e radicou-se no Canadá. Sua ascendência era mexicana e libanesa. Suas canções são fortemente marcadas pelo canto tradicional da música latina, manifestação muito bem exposta em seus dois primeiros álbuns, “La Llorona (1998) e “The living Road” (2003). Embora cantasse em inglês e françês, como em seu último cd, “Lhasa” (2009), era na língua espanhola que ela melhor expressava seus sentimentos. Uma das músicas mais tocantes que já ouvi é “Con toda palavra”, que abre o seu segundo disco. A interpretação de Lhasa é belíssima e triste, ela disseca lá do fundo do peito o significado de cada palavra, cada verso de uma letra que é poema autêntico, sem retoques.

Eu considerava que a emocionante interpretação da cantora fosse definitiva, depois de tanto ouvir no disco e vídeos no Youtube. Ninguém poderia cantar como ela todas aquelas palavras. Mas não. Saudável engano. Há cerca de um mês fui surpreendido pela comovente interpretação do cantor Rubi, no show que ele fez em Brasília pelo projeto em tributo ao cinquentenário de Cássia Eller. Eu já estava magnetizado com a sua apresentação, com o desfilar de composições suas e releituras das músicas do Cazuza e, principalmente, “Ne me qui te pas”, outra tão perfeita quanto a interpretação dolente de seu autor, Jacques Brel, no final dos anos 50. Já me bastava todo esse sentimento que o Rubi nos presenteava no show. Mas o cantor goiano-brasiliense, residente em São Paulo, não nos dispensou de mais emoção: trouxe lá das entranhas todas as palavras da canção de Lhasa. Rubi era todo coração, “con toda sonrisa, con toda mirada, con toda caricia”. Suave, profundo, dolorido. Minimalista em seus gestos, movia-se no ar no voo que a canção sugere, “me acerco al água, bebiendo tu beso, la luz de tu cara, la luz de tu cuerpo”.

Impossível sair-se a mesma pessoa depois de assistir a um show de Rubi, esse moço de voz afinadíssima, uma joia rara. Encanta com seu canto. Sublime no palco, com sua beleza ébano, Rubi é um dos maiores cantores brasileiros. A composição mais simples ganha em sua voz a imponência e serenidade de interpretação única. Mais do que interpretação da letra e melodia, Rubi vive o que está cantando, abraça, assume, compartilha o contentamento e o pesar do que sua voz expressa e revela. Um canto da alma. Um corpo que fala na entrega do que a música provoca e incita sentimentos. Por isso, um coração mais atento sai mais revestido de vida depois de ouvir Rubi.

Lhasa De Sela foi embora muito nova, aos 37 anos, no Ano Novo de 2010, abatida por um câncer de mama, logo ali onde pulsava seu coração tão cheio de belas canções. No show em homenagem a outra beleza rara, Cássia Eller, Rubi igualmente venerou com admiração a cantora Lhasa De Sela. Venerou a Música. Venerou-se.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

o sertão por testemunha



Em 1929 o cineasta Dziga Vertov realizou o longa-metragem “O homem com uma câmera” (Chelove s kinoapparatom), um marco na história do cinema, um filme seminal não somente como documentário, mas como cartilha da linguagem cinematográfica. Como diz o título, é o olho humano vendo o mundo através da lente da câmera. No enquadramento tudo converge em um único ponto de visão, e exatamente por isso, a partir dessa obra-prima, criou-se o termo “olho-câmera”, ou “cinema-olho”, ou “câmera-olho”. Vertov em uma hora e seis minutos filma o cotidiano de cidades russas naquele início de século.  São planos milimetricamente compostos com a retina e a intuição. O gênero documentário na sua definição mais precisa “persegue a realidade”, enquanto a ficção “recria essa realidade”. E Vertov foi fundamental na construção de uma narrativa dramática e poética em seus filmes que registram os primeiros passos do próprio cinema, perseguindo ou recriando o que via.

O filme do cineasta russo foi a primeira associação que me veio à cabeça e ao coração ao assistir o curta-metragem “Monte Pedral”, do cearense Marcley de Aquino, exibido no III Festival de Jericoacoara Cinema Digital, em junho passado.  Com pouco mais de 14 minutos de duração, o filme impressiona pela habilidade de tornar a câmera invisível ao documentar o cotidiano de uma pequena fazenda encravada nos cafundós do sertão cearense. Marcley acompanha a rotina do vaqueiro Pedro, levando o gado para a pastagem, realizando tarefas comezinhas, alimentando os animais, tirando leite das vacas, amolando o facão, descansando deitado numa pedra enquanto o gado come a ração, entoando um mantra de aboio e tangendo os bois de volta para o curral. Simples assim. Mas não é uma reportagem do Globo Rural. É Cinema. Ao comando da câmera invisível, tem o olho de um cineasta, completamente tomado de poesia e proximidade umbilical com o ambiente: quando menino, Marcley vivia suas férias escolares em Monte Pedral, que foi propriedade de sua família.  Os recortes na decupagem do filme são imagens que ele transpôs trazidas da infância, a quem o curta é dedicado. E quando Marcley faz essa dedicatória, não é somente ao seu tempo de criança naquele ambiente rústico e natural, sólido e poético, campônio e universal, ele se refere igualmente à infância do cinema, o que remete diretamente aos primeiros fotogramas da arte cinematográfica, à Vertov.  Marcley revisita sua infância através da semente do Cinema adubada em suas reminiscências e em suas leituras.

“Monte Pedral” fala do chão sagrado de um sertão ao mesmo tempo roseano, de tão verde, e graciliano, pela textura do tempo.  Expressa-se na mesma definição de um filme pessoal, do autor com sua aldeia afetiva, e de um conto cinematográfico de terras mais distantes. Marcley desmitifica o sertão quando apresenta o vaqueiro Pedro sem a tradicional indumentária de couro. O personagem real e nos dias hoje veste bermuda, camiseta de malha, boné e usa botas de borracha, mas íntegro e inalterado em seu desenho interior. Desmitifica sem destruir a memória. Atualiza sem implodir o passado. Filma em digital sem arrancar a pele do cinema. Essa composição do ontem e o agora, do histórico e do moderno, se exprime e imprime em vários momentos da narrativa: nos planos em que se cruzam o burro carregando água e a bicicleta com o menino, que cruza ainda com uma moto em disparada; no vaqueiro que bebe água no gargalo de uma garrafa pet, no funil improvisado com o pedaço dessa garrafa. São hábitos de dois tempos que não se conflitam, se unem na mesma metragem do filme. Tudo estava ali em Monte Pedral, ontem no preto-e-branco de um jeito, hoje no colorido estourado de outro feito: e o cineasta chegou com seu olho-câmera, assim como o Cinema ali o esperava com sua câmera digital G12.

Sem música, no roçado do som ambiente, o filme é um poema, uma elegia à beleza e a simplicidade do ser humano. Os planos em contra-plongée é uma reverência à grandiosidade do local e seus personagens: o vaqueiro com sua liturgia campestre, os bois quietos mastigando a tarde. “Monte Pedral” é um filme em reverência ao Cinema.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

a filha, o pai

Noriko tem 27 anos, é bonita, prendada, e o pai, a tia e a vizinhança insistem que ela precisa casar. A moça não pensa nisso, prefere ficar cuidando do pai, viúvo. “Quero ficar aqui com você para sempre, papai”, diz Noriko sempre que o pai volta ao assunto de que a filha precisa seguir seu caminho.

A partir desse enredo simples, o cineasta Yasujiro Ozu desenvolve o roteiro de um dos mais belos filmes da cinematografia mundial, "Pai e filha" (Banshum), de 1949. Minimalista, o cineasta japonês disseca sentimentos que mexem com todos.

Será que todos os filmes bons já foram feitos? 

domingo, 12 de agosto de 2012

os jovens paraenses

Dona Onete. Ela tem 75 anos e inventou o carimbó chamegado, para dançar agarradinho e lambuzar o coração de açaí.
A vida ganha um realce de esperança na simplicidade e talento tão natural de uma mulher como Dona Onete. Essa paraense de voz
potente e afinadíssima, professora aposentada, agora largou-se pelos palcos cantando suas composições, boleros de letras "safadas", misturando cúmbia com samba, lundu com batuque negro, puxadas eletrônicas com sirimbó da vovó. Confesso minhas 'furtivas lágrimas' de emoção ontem em seu show dentro do bem-vindo projeto Invasão Paraense, uma das melhores programações musicais do CCBB Brasília deste ano.
Claro que fui depois para abraçá-la e autografar o cd.
 
Mestre Laurentino, tem 88 anos, passou muito tempo produzindo centenas de fitas cassetes gravadas no quintal de sua casa: valsas, marchas, fox, jazz e rock. Rock mesmo! Ele é conhecido como o roqueiro mais antigo do Brasil, aliás, do mundo, já que Chuck Berry tem 86.

O paraense de Marajó tem músicas gravadas pelos pernambucanos do Mundo Livre S/A, Gilberto Gil, Fafá de Belém, Tom Zé, Otto, e sampleadas por Marcelo D2. E o bom velhinho irado montou o conjunto (como ele diz) Os Cascudos e segue fazendo show. Ontem ele fez uma participação luxuosa em simplicidade e vigor no show de Dona Onete, no CCBB Brasília, cantando três rocks de sua autoria, dançando feito um moleque, tocando gaita feito um Bob Dylan.
 

meu porto Mucuripe

"Calça nova de riscado, paletó de linho branco, que até o mês passado, lá no campo inda era flor...", sempre que revejo essa foto, aumentam minhas saudades, meu pai, meu velho, meu amigo. Eu aí tão semente na barriga de minha mãe, e você se foi tão cedo, igualmente semente neste mundo... de seu abraço e seus dias, guardo "um sorriso ingênuo e franco, de um rapaz moço encantado" com muito tempo de amor que foi em nossas vidas. Ficamos todos órfãos, meu pai, sem sua coluna de proteção em casa, com o vazio de seu horário na volta do trabalho. Depois que a vida vento vela lhe levou daqui, "aquela estrela é bela" no céu e no vão sala. Mas não tenho medo da saudade: é com ela que continuo ligadão em você.
Um beijo, meu pai. Todos os dias.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Little Boy

Lembro-me que em 2007 o Ministro da Defesa japonês, Fumio Kyuma, disse que era “inevitável” que os Estados Unidos lançassem duas bombas atômicas sobre o Japão durante a Segunda Grande Guerra Mundial. Isso teria evitado que a Uniã
o Soviética entrasse também na batalha do Pacífico. Mas o que é isso, sr. Kyuma? Pelo amor de Buda!

O cara com seus olhinhos miúdos e raciocínio idem, considerava, e deve pensar ainda, que as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki conseguiram “acelerar o fim da guerra”. Essas declarações absurdas repercutiram muito mal entre os sobreviventes e seus descendentes, claro, e incomodaram o primeiro-ministro, Shinzo Abe.

Há exatos 65 anos, às 8h15 do dia 6 agosto de 1945, a bomba "Little boy" foi lançada sobre a cidade de Hiroshima, matando instantaneamente cem mil pessoas. O local de 350 mil habitantes tinha um porto militar insignificante. Não havia necessidade para o ato. O Japão já estava derrotado, sem condições para a continuidade da guerra, com fábricas militares destruídas. E o sr. Kyuma vem com um papo desse!

Do outro lado, onde o império sempre atira primeiro e pergunta depois - quando pergunta -, as justificativas são igualmente doentias. Ao longo dessas seis décadas do lançamento das duas bombas pelo governo dos EUA, é cada vez mais repudiante a conversa dos americanos para esse genocídio.

Theodore "Dutch" J.Van Kirk, era major-aviador do avião Enola Gay, bombardeiro B-29 que lançou a coisa. Deve está com mais de noventa anos. Do alto da sua senilidade arrogante, não se arrepende do que fez, e dizia que passou um bom tempo se preparando para o momento, e que "foi uma das missões mais fáceis" da sua vida. Esse senhor do voo da morte, pelo que li recentemente, vive em um luxuoso asilo na Geórgia, lustrando as 15 Medalhas Aéreas que ganhou após a "missão". Deve receber sempre a visita do tal ministro japonês para um chazinho verde com cookies...

O bombardeio sobre o Japão foi o maior ataque terrorista da história. No mínimo 50 vezes mais letífero que o 11 de setembro de 2001. Muitas imagens dos efeitos do cogumelo de fogo ficaram na lembrança de todos. Imagens como essa foto do garotinho chorando entre os destroços. Garotinho, que ironicamente é a tradução literal do nome da bomba.

Vinicius de Moraes traduziu bem o que resultou da estupidez humana em seu poema "Rosa de Hiroshima", que Gerson Conrad, do grupo Secos e Molhados, musicou em 1973:

Pensem nas crianças
mudas telepáticas
pensem nas meninas
cegas inexatas
pensem nas mulheres
rotas alteradas
pensem nas feridas
como rosas cálidas
mas oh não se esqueçam
da rosa da rosa
da rosa de Hiroshima
a rosa hereditária
a rosa radioativa
estúpida e inválida
a rosa com cirrose
a anti-rosa atômica
sem cor sem perfume
sem rosa sem nada.

domingo, 5 de agosto de 2012

carimbó pauleira

Contagiante, empolgante, cintilante, colorido, brilhante, expressivo, paraense, nortista, brasileiríssimo! Obrigado, mestre Pinduca, pelo show que você fez ontem no CCBB Brasília, no projeto Invasão Paraense.

Carismático, de uma simpatia extrema, cantando e conversando com a plateia, o Rei do Carimbó fez um show inesquecível, antológico. Aos 75 anos, o artista mantém-se com a mesma vitalidade de quando começou a cantar aos 14 anos. Esse vigor natural se espalha nos nove músicos que o acompanham e nos três dançarinos que completam o espetáculo. O teatro do CCBB virou um palco só com a invasão paraense. Uma festa imodesta, desenvolta nas voltas que o carimbó dá. E particularmente fiquei mais alegre com a 'performance' da minha Cristina que subiu ao palco a convite do mestre, dançando e ganhando uma prenda na peleja com outros dançantes.

sábado, 4 de agosto de 2012

de New Orleans pro cerrado

Direto das ruas de New Orleans para o Estacionamento 10 do Parque da Cidade em Brasília, a ótima Meshiya Lake. Uma oportunidade rara de ver, ouvir e dançar com uma das melhores cantoras da novíssima geração do jazz tradicional, aquele com b
anjo e bandolins, surgido em meados dos anos 30.

A apresentação faz parte do projeto I Love Jazz, que amanhã traz uma turma ainda mais renomada, o saxofonista Scott Hamilton e os animados da banda Dukes of Dixieland, que fazem uma mistura do country com o gospel.

Meshiya gravou um disco muito bom, há uns dois anos, "Lucky Devil", onde revisita uns clássicos do gênero e composições novas.
Ela se apresenta com sua banda, The Little Big Horns, às 17h. De graça.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

sirimbó da minha vovó

Começa hoje no CCBB Brasília o projeto Invasão Paraense. Até dia 18 próximo atrações imperdíveis com 12 artistas que trazem a música popular da região como o carimbó, as guitarradas típicas, essa belíssima música de influência indígena miscigenada saborosamente com a música negra. Alguns dos artistas anunciados fazem uma curiosa mistura com as puxadas eletrônicas. Felipe Cordeiro, Gang do Eletro, Jaloo, Lia Sophia, são excelentes nessa fusão "eletromelody". Dona Onede, Mestre Laurentino, Mestre Vieira, Metaleiros da Amazônia, e outros, mantém o canto mais puro, o que antes era visto com um olhar enviezado pela classe média babaca e pela "crítica especializada". Agora a mídia tascou o "cult" no gênero e inventou o termo "tecnobrega" para se redimir da visão preconceituosa.

Dessa turma nativa, autêntica e de muita responsa, eu reverencio o senhor Aurino Gonçalves, o Pinduca, que faz show amanhã. Aos 75 anos, o mestre é o mais representativo da música do Pará. Manteve-se íntegro com seu gingado, com seu enorme chapéu e penduricalhos, suas roupas coloridas, seu canto intuitivo no balanço do carimbó, siriá, sirimbó num caldo delicioso com o merengue e a cúmbia.

Agora, o show de abertura de hoje, eu passo. A "tremível" Gaby Amarantos não dá. Ela é muito simpática, animada, segura no que canta, mas aquela música não me encanta. Uma espécie de mistura indigesta do axé-music com tacacá, uma voz irritante de Ivete Zangalo, e essa coisa de "vamos lá, mãozinhas pra cima, faz um T"... Ruim de tremer.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

o cinema no clube

Um dos folhetos do Cinema de Arte do Cine Diogo, em Fortaleza, nos anos 70. Os textos, impressão e distribuição eram de responsabilidade do Clube de Cinema de Fortaleza, presidido por Darcy Costa. Dele recebi a tarefa de edição dos folheto
s. Sem internet, sem Google, e numa Remington 23, eu coletava as criticas dos filmes, fichas técnicas, pegava fotos de revistas, e muitas vezes, nós do cineclube escrevíamos sobre alguns filmes programados. O Darcy fazia a revisão antes de eu levar para a gráfica Tipogresso. Eu gostava de ir pegar o pacotaço de 1000 exemplares, sentir aquele cheiro característico de tinta e papel "saindo do forno". E fazíamos a distribuição sempre nas primeiras sextas-feiras de cada mês, antes das sessões. Lembra, Afonso Celso?

Saudosismo à parte, sinto falta desse sangue pulsante nas veias do movimento cineclubista, quando se aprendia Cinema vendo e discutindo bons filmes, quando existiam críticos de cinema e não resenhistas, quando existiam páginas inteiras nos jornais dedicadas aos filmes em cartaz e não blogs cheios de bobagens do cinemão industrial.

Há uma inquietação nas cabeças pensantes que fazem cinema e os cineclubes estão voltando.Caroline Vieira, Duarte Dias, Aleksandra Perira, Duarte Dias, Francis Vale, Marcley de Aquino, Marcelo Ikeda, e outros amigos sinalizam, apontam uma luz na sala escura. É uma tarefa difícil. Um trabalho de reeducação mesmo. Tentar convencer que o trabalhador humilde Antonio Ricci de "Ladrões de bicicletas" é mais herói que Batman, Homem-Aranha, Homem-de-Ferro e toda a "Cinta-Liga" da Justiça não é fácil. Para quem acha que Christopher Nolan é gênio porque fez "Amnésia", ou sofre do que diz o título ou nunca viu "O homem com a câmera", de Dziga Vertov.