sábado, 30 de abril de 2011

aqui, agora e sempre

"Não há outra forma de se alcançar a eternidade senão afundando no instante, nem outra forma de chegar à universalidade senão através da própria circunstância: o aqui e agora."

Um livro com muitos trechos sublinhados, anotações nas laterais, nas margens, com observações endosando ou discordando, é sinal que atingiu quem leu. Tenho esse hábito. Só leio com lápis na mão.

Hoje, ao saber da morte do escritor argentino ERNESTO SÁBATO, dei uma folheada em seus livros e vi que todos estão devidamente com esse registro de que o que li mexeu comigo, empolgou-me, me jogou reflexivo diante do mundo. "O escritor e seus fantasmas", lançado em 1963, numa edição que tenho de 1982, de onde tirei a citação acima, é o que está mais rabiscado. O livro é um excelente ensaio sobre o que literalmente diz o título, sobre o que provoca o escritor, sobre a razão dos seus livros, sobre a concepção geral da literatura e da existência. Um livro imprescindível não somente para quem escreve, como também para quem lê.

Dos quase vinte livros que compõem a obra de Ernesto Sábato, de "Nós e o universo", de 1945 ao seu último trabalho, ""Espanha nos diários de minha velhice", passando pelas suas memórias, "Antes do fim", de 1998, fica difícil escolher o melhor. Destaco o livro citado no início pelo seu biblicismo literário, por uma questão pessoal, por eu ter recorrido várias vezes às suas páginas. 

Sábato se foi aos 99 anos.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

mundo "real"

- Isso não existe! É mentira! Princesa só existe em desenho animado!

Comentário de minha filha de 7 anos ao ver na televisão a cerimônia do Casamento Real. 
E foi assistir ao desenho da Cinderela.

a fome real

5,8 bilhões de euros, algo em torno de R$ 13,4 bilhões, deve custar à economia britânica a cerimônia de casamento do príncipe com a plebeia.
E a mídia e milhões de súditos voltados pro umbigo da realeza.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

rubi or not rubi

 foto Nirton Venancio
Rubi, claro! Show hoje no Sesc Taguatinga, DF, às 20h,  desse grande cantor brasiliense. Mora em São Paulo, tem dois discos, e precisa ser mais conhecido pelo resto do país.
A entrada é 0800.

domingo, 24 de abril de 2011

lado de fora

 foto Nirton Venancio
Todos dias eles vêm me visitar. Acordo com o barulhinho deles.
Eles estão soltos. Eu do lado de dentro.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

B.R.A.S.I.L.


Óleo sobre tela de Oscar Pereira da Silva, que retrata o desembarque de Seu Cabral e turma em Porto quando-era-Seguro, na Bahia de Todos os Índios, em 22 de abril de 1500. 

Tradução de Chico Anysio para a sigla acima: Bravos Rapazes Americanos Silenciosamente Irão Levando.

as tentações da Páscoa


  foto Arquivo NV
Neste período de Semana Santa a televisão costumava reprisar alguns filmes bíblicos, como "Ben Hur" (Ben Hur), dirigido por William Wyler, em 1959, "O rei dos reis" (King of kings), 1951, de Nicholas Ray, ou até mesmo produções mais recentes, como a suntuosa minissérie televisiva "Jesus de Nazaré", de Franco Zeffirelli, de 1977, também lançada nos cinemas.
As reapresentações diminuiram, tanto em número como em qualidade. A Globo exibe em horário vespertino o fraco "Maria - Mãe do Filho de Deus", dirigido por Moacyr Góes, com Giovanna Antonelli e, nada-mais-nada-menos, Padre Marcelo Rossi.

O SBT apresenta no mesmo horário da concorrente, um tal "Judas e Jesus - A história da traição" (Judas), filminho dirigido pelo desconhecido Charles Robert Carner, com um elenco mais obscuro ainda, de 2005, lançado diretamente em dvd. E deve estar no ar na Tv Band, enquanto redijo estas sacrílegas linhas, o horrível "A paixão de Cristo" (The Passion - part 2), de Michael Offer, com elenco que nem vale a pena saber.

Nos canais fechados a maratona da Páscoa vai de "The Spirit - o filme" (The Spirit), de Frank Miller, que não tem nada a ver com o tema da semana, mas tem a bela, belíssima Eva Mendes e, de quebra, Scarlett Johansson, e entre e outro programas documentários, como "Crucificação", especiais sobre Hitchock e Claude Chabrol.

Este período pascoal é como aquele outro natalino. O interesse maior é pelo tamanho e sabores variados dos ovos de chocolates, assim como a noite de 24 de dezembro se resume aos presentes, perus-sadios e fachadas iluminadas de apartamentos. Nada contra uma coisa e outra. O que incomoda é a hiprocrisia de quem faz a festa.

Em bom tempo: na foto acima o ator Enrique Irazequi, interpretando Cristo em "O evangelho segundo São Mateus" (Il vangelo secondo Matteo), dirigido por Pier Paolo Pasolini, em 1964. O filme é excelente, foge a todo tipo de leitura que os títulos acima citados, e muitos outros, fizeram da "maior história de todos os tempos". Passar na tv? Não vejo a mais remota possibilidade.

terça-feira, 19 de abril de 2011

o último romântico

Roberto Carlos, 19 de abril, 70 anos de idade.

De todas as mesmas capas, essa é a mais bonita, do disco de 1972, onde tem a sua música mais confessional, "O divã".

Gostando ou não dele, Roberto faz parte da história brasileira, e mantém-se autêntico há cinco décadas, fiel a uma "fórmula", a um romantismo meio bossa-nova, meio rock-and-roll.

Cometeu uma burrada na vida dele: a proibição do livro "Roberto Carlos em detalhes", de Paulo César de Araújo, uma das biografias mais bem escritas que já li, fruto de quinze anos de pesquisa. Foi mal, Roberto. Para quem cantou o amor e o perdão em todas as letras, se contradisse com essa censura. 

Cara, você faz parte do nosso imaginário, não houve invasão de privacidade.  Ninguém que acabar com você. Corte essa e conserte a mancada que você deu. O show ainda não terminou. 

Não, não vou lhe poupar dessa reclamação no dia do seu aniversário. Sou seu fã, não sou súdito.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

não! não! não!

 cena do filme "Pai-patrão", de Paolo e Vittorio Taviani

"Primeiro são os pais, peritos em anular a auto-estima dos filhos e provar que eles não servem para nada; depois a escola, que insiste em mostrar que a criança está lá para se comportar e obedecer e não para desenvolver seus talentos; e, por fim, a religião dá o toque final, castrando nossa felicidade e nos impringindo culpa.

Pais, escola e religião formam a base do que chamo de tripé da anulação, um bem-azeitado 'sistema de educação' que funciona com tal eficiência e habilidade em produzir pessoas inseguras e frágeis que quase ninguém consegue escapar.

(Nuno Cobra, em seu livro "A semente da vitória")


Abraço meus filhos: são pássaros soltos dentro de mim. A pedagogia do afeto é a única direção.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

amor nunca é demais

Pedagogia: vem do grego, literalmente "condução da criança".
Só acredito na pedagogia do afeto.

terça-feira, 12 de abril de 2011

migrante

 foto Arquivo Público DF

 Quando vim, se é que vim
de algum para outro lugar,
o mundo girava, alheio
à minha baça pessoa,
e no seu giro entrevi 
que não se vai nem se volta
de sítio algum a nenhum.

Quando vim da minha terra,
não vim, perdi-me no espaço, 
na ilusão de ter saído.

(trechos de "A ilusão do migrante", de Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 9 de abril de 2011

um cineasta injustiçado

São mais de 50 títulos na filmografia de Sidney Lumet. A maioria memoráveis, como "Um dia de cão (Dog day afternoon), de 1975, drama policial baseado em episódio ocorrido no bairro do Brooklyn: um cara assalta um banco para custear a cirurgia de mudança de sexo de seu amante. As atuações de Al Pacino e John Cazale são impecáveis.

Muitos outros filmes desse cineasta da Filadélfia merecem ser revistos, como "Rede de intrigas", "O veredito", "A manhã seguinte"... O meu preferido é "Doze homens e uma sentença" (12 angry men), seu primeiro filme, de 1957, uma completa aula de Cinema, a perfeição em roteiro, narrativa, direção de cena, e atuação magistral de Henry Fonda. Há três anos escrevi nesta página sobre esse clássico pouco divulgado.

Sidney Lumet faleceu hoje, aos 86 anos. Foi ignorado, injustiçado pela Academia, que nunca lhe concedeu um Oscar. Reconhecendo a burrada, deram-lhe em 2005 uma estatueta em "reconhecimento por seus brilhantes serviços para roteiristas, atores e a arte cinematográfica”.