quinta-feira, 31 de março de 2011

nunca mais outra vez

 foto Deisy Jesini

Hoje: 47 anos do golpe militar no Brasil. Não há motivos para comemorar. Pelo menos do lado de cá. Os reacionários, conservadores, ultra-direitistas, fundamentalistas de idéias conservadores devem estar saudosos.

Foram 20 anos de trevas sobre o país até os primeiros raios de luz das Diretas Já. Da "ditadura técnica" do abjeto Collor até a esperança de Lula chegamos a uma democracia. Não é a democracia que queremos, que sonhamos, mas é uma democracia, e mesmo com os defeitos, que precisamos combatê-los, o país é uma república federativa presidencialista.

Vivemos duas décadas de arbitrariedades, de prisões, de torturas, de mortes, de "suicídios", de corpos em valas comuns, sumidos, jogados ao mar. Há mais de quarenta anos que pais não têm seus filhos de volta, que filhos não conhecem seus pais, que brasileiros perderam o passado em cárceres e ainda ecoam em seus ouvidos a ira de seus carrascos. A tortura como instrumento do Estado, e não da lei, foi uma marca registrada do governo militar.

Em 1998 realizei um filme curta-metragem, "O último dia de sol", ambientado nesse período. Com roteiro a partir de lembranças minhas sobre o meu pai e histórias que ouvia, o filme se passa na madrugada de 1º de abril de 1964, quando um militante político foge com a mulher e o filho pequeno numa pequena cidade do interior cearense. Filmei em preto-e-branco, em película 35mm, com atores e técnicos de Brasília, Fortaleza e Rio, na pequena cidade de Baturité, a 100 quilômetros de Fortaleza, reconstituindo a época e revisitando as emoções. Foram dois anos entre filmagem e montagem, e junto a alegria de fazer cinema, de ouvir o toque da claquete e gritar "ação!", as dificuldades inerentes, principalmente de orçamento.

Neste 31 de março, a minha homenagem aos que lutaram contra a Ditadura Escancarada (aproveitando o título do livro de Elio Gaspari).

E os meus sempre e sempre e sempre agradecimentos a equipe que fez comigo esse filme. Abraços a todos!

O filme está disponível para assistir online aqui na página.

terça-feira, 29 de março de 2011

o sopro do jazz



Sempre me impressionou as bochechas do grande trompetista de jazz Dizzy Gillespie... Era sua marca registrada, aliada a sua música virtuosa.

Gillespie criou um jazz moderno a partir do bebop, um mestre do improviso com seu trompete curvo, sua espontaneidade, sua alegria.

A autobiografia, "To be or not to bop", publicada em 1979, tem umas revelações bem interessantes. Em 1964, quando Barak Obama era menino em Honolulu, Gillespie lançou-se candidato à presidência dos Estados Unidos. O país vivia fortes conflitos raciais, e tinha a guerra do Vietnã. Sua plataforma política anunciava somente negros no seu governo: Miles Davis seria o diretor da CIA, Louis Armstrong à frente do Ministério da Agricultura, Duke Ellington seria Secretário de Estado, o Procurador Geral ninguém menos que Malcolm X... e o melhor, a Casa Branca passaria a se chamar Blues House. O apoio dos ativistas e músicos foi total.

Mas ganhou Lyndon Johnson, que era vice-presidente de John Kennedy, e já cumpria mandato no lugar do chefe assassinado.

Ganhou o jazz com Gillespie continuando com seu trompete e suas bochechas inchadas.

domingo, 27 de março de 2011

na Pedra do Ingá

Lula Côrtes é um dos nomes mais representativos da música brasileira, como músico, letrista, poeta de versos cheios. Pernambucano da gema, fez um disco histórico com Zé Ramalho, "Paêbiru", gravado artesanalmente nos lisérgicos anos 70, uma preciosidade que mistura acordes nordestinos com o rock psicodélico. 

O vinilzão é uma raridade: os 1000 exemplares restantes foram embora água abaixo numa enchente em Recife que invadiu como um tsunami a gravadora Rosemblit. Quem tem o disco, tem e pronto, não empresta, sequer vende pelo preço que colecionadores oferecem, algo em torno de R$ 5 mil. Eu não venderia se tivesse. Tenho uma fita cassete copiada de um amigo, e há uns dois anos baixei da internet. Mas os chiados estão lá, em algumas faixas. O que é bom. 

Tenho outros elepês solos no Lula Côrtes. Todos bons. Parceiro em várias canções de Alceu Valença, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho, o compositor para garantir uma grana mensal trabalhava como assessor da prefeitura num interior pernambucano. Morreu ontem, aos 61 anos, de câncer na garganta. Os jornais deram um quadradinho com um quarto de lauda na página de obituários.

  Contracapa em cd de um disco que foi na contramão: "Paêbiru".

 
Zé Ramalho e Lula Côrtes em tempos dinossáuricos, em vibrações lisérgicas de chá de zabumba, pousando no sertão paraibano da Pedra do Ingá como ETs para o encarte do vinil "Paêbiru". E lá se foram os cabeludos anos 70.

Avohai, caro Zé, que continua espalhando coisas sobre um chão de giz...
Avohai, caro Lula Côrtes, agora a caminho da montanha do sol... Padim Ciço já lhe benzeu.

quarta-feira, 23 de março de 2011

ninguém teve medo de Liz Taylor


Morre Elisabeth Taylor, a eterna Cleopatra.

Mas sua melhor atuação foi em "Quem tem medo de Virginia Wolf?" (foto), dirigido por Mike Nichols, que lhe deu o segundo Oscar de Melhor Atriz, em 1967.

O primeiro foi em 1961, com o filme "Disque Butterfield 8", de Daniel Mann.

segunda-feira, 21 de março de 2011

nos braços de Morfeu

 "Noon: Rest from work - after Millet", de Van Gogh

A alta velocidade do mundo contemporâneo tem aumentado a frequência dos problemas de sono através de mecanismos tanto psicológicos como biológicos. Um sono de má qualidade influencia sobremaneira a vida pessoal e profissional, e em muitos casos, aumenta o risco de acidentes e de uma série de problemas de saúde.

O ideal é se pudéssemos dormir oito horas, evitando até de beber água no começo da noite para não ter que acordar de madrugada para ir ao banheiro. Ando me reeducando para o sono: tenho o costume de dormir tarde, aproveitando o silêncio da noite para ler e escrever, e não porque queira e sim porque preciso, acordar cedo, muito cedo. São somente seis horas na cama - quando não faço samba-e-amor-até-mais-tarde-e-tenho-muito-sono-de-manhã... 

Hoje, 21 de março, é o Dia Mundial do Sono. Não tenho a menor ideia quem decretou a data. Mas, enquanto estamos acordados, pensemos mais na forte relação entre o sono e a saúde. Dormir não é para preguiçosos.

terça-feira, 15 de março de 2011

meu tio prendeu um cara

 
foto Arquivo NV

Broderick Crawford (1911-1986) foi um ator que marcou muito a minha infância. Em cinquenta anos de carreira fez mais de sessenta filmes. Sua interpretação mais conhecida foi em "A grande ilusão" (All the king's men), dirigido por Robert Rossen em 1949, que lhe deu o Oscar de ator pela interpretação de um político corrupto (com perdão da redundância). Não confundir com o filme de Jean Renoir, o homônimo "A grande ilusão", dirigido em 1939, com outro grande ator, Jean Gabin. O filme de Rossen teve uma refilmagem há uns quatro anos, mantendo o mesmo título pra aumentar a confusão, com direção do ilustre desconhecido Steven Zaillan, com Sean Penn no papel que coube a Crawford. Outro grande papel de Crawford foi em "A trapaça" (Il bidone), que Federico Fellini dirigiu em 1955, onde na Itália pós-guerra faz um romântico vigarista que vive de pequenos golpes, aproveitando-se da ingenuidade de camponeses. É um Fellini da fase que mais gosto, neo-realista.

Mas não foram os filmes de Broderick (eu adorava pronunciar esse nome...) que ficaram na minha memória tão fortemente, e sim o seriado para a televisão, "A patrulha rodoviária" (Highway Patrol), produzido nos anos 50 e que assisti em meados dos anos 60 pela TV Ceará, retransmissora da Tupi, em Fortaleza. 
Não sei se vi todos, mas foram mais de 150 episódios, onde o ator fazia o Sargento Dan Matthews, um policial severo, implacável, carismático, quase um John Wayne do asfalto, com a vantagem que não matava índios. Perseguia os bandidos, prendia-os e os entregava à justiça. E essa minha admiração por Broderick Crawford era reconfortante porque eu tinha um tio que era a cara dele. Ver um me remetia ao outro. O meu mocinho tinha o biótipo de um homem comum, próximo de mim, sangue do meu sangue. E assim o cinema e a infância me jogavam no mundo próximo e distante da fantasia, da idealização inquebrantável que as crianças fazem de um mundo perfeito. Crescer tem o inconveniente de que o mundo fica muito palpável, o dia é irreversível, a esperança necessita de muito esforço. Não sei se meu filho hoje espelha o tio dele no capitão Nascimento de "Tropa de Elite". Não sei quantos Wagner Moura são possíveis para um Broderick Crawford. Não somos mais as crianças diante da tv em preto-e-branco, e a fantasia é digitalizada em megapixels, a um palmo de nosso olho tridimensional. Tão perto, tão longe.

domingo, 13 de março de 2011

mais além


 “Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado,e disse à minha alma: 'Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?' E minha alma disse: 'Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho.'"
                                                                         Walt Whitman

sábado, 12 de março de 2011

o traço de Lupin

 
O cartunista cearense João Alberto Noqueira Tavares, o Lupin, faz um trabalho interessantíssimo, como esse acima, feito numa página do livro de Patrícia Melo,  "A valsa negra".

O grande barato de suas criações, além da simplicidade e grandeza do traço, são as intervenções, as colagens, as parcerias ousadas. 

As (re)criações, partindo sempre de uma ideia original, criam uma nova ideia igualmente original. Autêntico, Lupin não poupa palavras em textos curtos, rápidos, diretos, e muitas vezes quebrando mitos, desconstruindo conceitos, indo até ao mimetismo profrano nas suas opiniões, podendo deixar alguns retilíneos conservadores incomodados.

Lupin precisa aparecer mais, em exposições, livros, jornais. É um grande artista que muitos gostarão de conhecê-lo neste terreiro brasileiro.

quinta-feira, 10 de março de 2011

seres humanos extraordinários


"Fizemos um filme sobre como transformar lixo em dinheiro, mas deram o Oscar para um filme sobre como transformar dinheiro em lixo"

Desabafo legítimo do artista plástico brasileiro Vik Muniz sobre o filme Lixo extraordinário, que concorreu ao Oscar de Melhor Documentário e perdeu para a produção americana Trabalho interno (Inside job), de Charles Ferguson, sobre a última crise financeira que abalou o mundo, em 2008.

Dirigido pela inglesa Lucy Walker e co-dirigido por João Jardim e Karen Harley, Lixo extraordinário acompanha o trabalho de Vik Muniz em um dos maiores aterros sanitários do mundo: o Jardim Gramacho, na periferia do Rio de Janeiro. O que ele consegue fazer naquele mundo inóspito é mais do que expressou no seu desabafo: transforma lixo em arte, recicla seres humanos do anonimato para o mundo. As pessoas que moram e sobrevivem no aterro são o grande motivo do filme, e os cineastas, conduzidos pelo olhar sensível e talentoso do artista plástico, trazem à tona, erguidos das montanhas de lixo, personagens verdadeiros, ricos em histórias, símbolos do abandono de uma sociedade cretina que despreza e iguala seres às coisas descartáveis.

Assisti aos dois filmes, e de longe, mais bem de longe mesmo, Lixo extraordinário é superior. Enquanto um é asséptico em suas análises, embora explicativas e didáticas, o documentário de Lucy Walker é a expressão da pureza humana no meio do que o homem rejeita, do que não mais lhe interessa ou pertence.

O filme é sobre seres humanos extraordinários.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Ella e ela


Marilyn Monroe e Ella Fitzgerald no Mocambo Night Club, em Los Angeles, uma casa de shows que ficou conhecida nos anos 50 pelos frequentadores famosos. 

Marilyn tinha uma espécie de contrato informal com os proprietários, para marcar presença sempre, com a intenção de atrair mais gente ao local.

E funcionava. A grande cantora não poupava agradecimentos pelo "empurrãozinho" que a atriz lhe deu no começo da carreira.

terça-feira, 8 de março de 2011

sábado, 5 de março de 2011

o século do cinema

  foto Arquivo NV

"O século 20 será compreendido através do cinema. Daqui a 50, 100 anos, o cinema vai ser a fonte de informação do século 20, porque o cinema não só reproduziu ou registrou o que estava acontecendo, como criou um mundo novo. 

Hollywood estará para o século 20 como o teatro grego esteve para a Antiguidade, os pintores italianos para a Renascença, os escritores franceses realistas para o século 19. Eu tenho várias queixas de Hollywood, mas não há a menor dúvida que vai ter essa importância."

terça-feira, 1 de março de 2011

intermitências

foto FrancePress
 
Pisa devagar, vida! Todos os dias uma notícia que uma pessoa querida foi embora.... 

Antes de ontem, o escritor Moacyr Scliar, hoje leio sobre a morte de atriz francesa Annie Girardot, a bela prostituta Nadia do filme de Visconti, "Rocco e seus irmãos", 1960.

apreço

 
"Às vezes em certos momentos difíceis da vida, em que precisamos de alguém para ajudar na saída..."