sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

então é Natal


Em 1995 a cantora Simone gravou um cd com doze faixas só com temas natalinos. É um disco cheio de versões de clássicos como o de Irving Berlin, "White Christmas" e "Silent Nights" de F. Gruber, respectivamente "Natal branco" e "Noite feliz", além do "Jesus Cristo" de Roberto Carlos e "Boas Festas", do grande Assis Valente.

Mas o que ficaria mesmo marcado, como um chiclete nos ouvidos, é a terrível versão de "Happy xamas/Was is over", de John Lennon e sua Yoko Ono, feita por Cláudio Rabello, por aqui intitulado "Então é Natal". Quem não conhece? Trilha sonora de shopping e principalmente de supermercados nesta época de Menino Jesus. Essa música não para de tocar.
O disco vendeu mais de um milhão de cópias, e garanto que não contribuí pra essa cifra.


Acho a música difícil de aguentar até com John Lennon. Ou talvez porque a sonoridade dessa versão já contaminou a original.

A música do ex-beatle é sobre a guerra do Vietnã, e usa o Natal como uma representação de final de ano, quando todos se mostram alegres e cordatos (o "espírito natalino"!), mas, na verdade, fica a pergunta que não quer calar: "And what have you done?". Pensa-se no aspecto comercial, no religioso, mas não na essência da mensagem de resistência pacífica daquele Cristianismo com o qual John, mesmo sendo ateu, se identificava. Versões como essa "Então é Natal", pela falta de conhecimento da língua inglesa e até mesmo por falta de talento, é um verdadeiro esquartejamento poético das obras.

E essa versão "simonética" já roda há tantos natais que eu achava que fosse bem antes de 1995.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

tire o seu sorriso do caminho

 foto Cinesthesia

Willie é um desocupado, mora num pequeno apartamento em Nova York. Um dia recebe a visita inesperada de uma prima, vinda da Hungria. Eles não se dão muito bem e, assolados pelo tédio, resolvem ir visitar uma tia deles em Cleveland.

Dizendo assim, parece banal, quase um fiapo de roteiro. Mas não é: "Stranger than Paradise", 1984, é um dos melhores filmes de Jim Jarmusch, cinema na contramão de "roliúde". 

Os longos planos, o minimalismo dos gestos, o silêncio da desesperança, a atmosfera cool, os pontos de desencontros... a narrativa faz de Jarmusch um Antonioni pós-beatnick.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

maiores abandonados

 foto Carlos Teles
 
Hoje lendo sobre os 103 anos do lúcido Oscar Niemeyer, desejo que todos os nossos velhos tenham a atenção merecida. 
Mas não é assim que acontece. A sociedade capitalista, como bem refletia duramente Walter Benjamin, desarma o velho mobilizando mecanismos pelos quais oprime a velhice, destrói os apoios da memória e substitui a lembrança pela história oficial celebrativa.

a aparência do ser

 
 foto AB Svensk Filmindustri

"Pensa que não entendo? O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser. Estar alerta em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Um sentimento de vertigem e a constante fome de finalmente ser exposta. Ser vista por dentro, cortada, até mesmo eliminada. Cada tom de voz uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso uma careta. Cometer suicídio? Nem pensar. Você não faz coisas deste gênero. Mas pode se recusar a se mover e ficar em silêncio. Então, pelo menos, não está mentindo. Você pode se fechar, se fechar para o mundo. Então, não tem que interpretar papéis, fazer caras, gestos falsos. Acreditaria que sim, mas a realidade é diabólica. Seu esconderijo não é a prova d’água. A vida engana em todos os aspectos. Você é forçada a reagir. Ninguém pergunta se é real ou não, se é sincera ou mentirosa. Isso só é importante no teatro. Talvez nem nele. Entendo porque não fala, porque não se movimenta. Sua apatia se tornou um papel fantástico. Entendo e admiro você. Acho que deveria representar esse papel até o fim, até que não seja mais interessante. Então pode esquecer como esquece seus papéis.”
 
Esta é a principal fala do filme "Persona", que Ingmar Bergman dirigiu em 1966. A enfermeira que não por acaso se chama Alma dá uma espécie de diagnóstico a Elisabeth, uma atriz de teatro, que durante a apresentação da peça "Electra", de Eurípedes, fica muda, e assim passa a viver, em silêncio diante de tudo, em atos comezinhos, em gestos minimalistas, sem nenhuma doença visível.

O sueco Bergman é o mais implacável dissecador da alma humana. Poucos cineastas conseguiram adentrar com a câmera os mais secretos sentimentos que encantam e perturbam o homem em suas relações afetivas.

Os seus personagens não escapam de sondagem psicológica, seus roteiros não se livram de acepção filosófica.

Em "Persona", Liv Ullman e Bibi Andersson entregam-se às suas personagens de forma anímica, uma retratando na outra o que seria o ser e a aparência. E no cinema de Bergman as aparências não enganam.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Seu Luiz é pop

foto Arquivo NV

Hoje Luiz Gonzaga faria 98 anos. Os cadernos cês dos jornais estão tecendo homenagens, chamando-o de “pop”. Pop de popular, ou seja lá o que isso signifique, o velho Lua sempre foi um dos meus ídolos. 

Não cresci ouvindo João Gilberto, Chet Baker e Leonard Cohen, santíssima trindade, entre tantas outras, que venero e escuto quase diariamente. Cresci ouvindo Gonzagão, Roberto Carlos, Reginaldo Rossi... e até mesmo antes dos Beatles, as versões enviesadas de Renato e Seus Blues Caps. Eu fui Jovem Guarda: Tropicália depois. Eu ouvia Cego Aderaldo: Robert Johnson, Muddy Waters, John Lee Hooker tiveram que esperar a rabeca terminar o ronco no meu sertão. 

Esses músicos igualmente ótimos, a gente conhece depois, quando se sai dos bairros periféricos, vai-se morar num apartamentozinho melhor e passa-se no vestibular. Por um tempo sentia-se vergonha de gostar de baião, cantar “Detalhes” pra amada amante, e de ouvido pegava-se carona no radinho da empregada dizendo pro garçon que “no bar todo mundo é igual”... Eu nunca dei a mínima pra isso, nunca me importei com o que achavam ou perdiam. Assumia meus erros, pecados e vícios.

Uma vez um amigo, nos final dos anos 70, apertou o play do meu toca-fitas CCE e ao ouvir o Rei cantando “Cavalgada” passou o resto da tarde curtindo com a minha cara. Mandei-o embora cantar “Amor de índio”, do Beto Guedes, que ele achava o máximo – e eu também.

Luiz "Lua" Gonzaga sempre foi ídolo a altura de todos outros que hoje são "cult”. A primeira vez que assisti a um show do Gonzagão me emocionei tanto quanto ao ver e ouvir B. B. King. Entre o Rio São Francisco e o Rio Mississipi a distância é a mesma em que navega meu coração.

A benção, seu Luiz!

a luz dos olhos teus

 reprodução Arquivo Pessoal

Hoje é dia de Santa Luzia. A imagem dessa Santa é uma das mais fortes lembranças da minha infância, em Crateús, interior do Ceará, onde nasci e fui criado
Minha tia era devota e na parede do quarto onde eu dormia, era a primeira imagem que via ao acordar: batia um facho de luz que vinha de alguma telha quebrada. Nada mais sintomático: a jovem santa siciliana é protetora dos olhos, da visão, da luz. 
A minha impressão era que a Santa me abençoava a manhã, com a oferenda do par de olhos na bandeja.
Casa desfeita, parentes idos, herdei esse quadro e a saudade. Coloquei-o na cenografia dos meus dois primeiros curtas-metragens. Afinal, cinema precisa de luz.

sábado, 11 de dezembro de 2010

o anjo torto de Vila Isabel

 foto Arquivo NV

NOEL de Medeiros ROSA viveu apenas 26 anos, de boemia e poesia. Hoje faria 100 anos. Bem que poderia estar aqui, apesar deste mundão que não lhe merecia. Bem que poderia estar, como está Dona Canô, Niemeyer... Mas Noel foi um dândi tresloucado, um irreverente no começo de um século reverencioso aos bons costumes do lugar. Do jeito que atravessava a noite e curtia a vida, não alcançaria estes mitológicos 2000 anos depois de Cristo.

Quando li "Noel Rosa: uma biografia", de João Máximo e Carlos Didier, em 1990, nunca tinha me deparado com um artista tão - como chamamos hoje - politicamente incorreto. Só lendo pra ver as presepadas que o magrelo fazia. E com suprema inteligência.

Noel é uma de minhas paixões. Um outsider, um anjo torto - turma que adoro, e que tem muito mais a dizer dos que andam em linha reta. 

A benção, Noel.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

ela dançando à beira do vulcão

 foto RKO Radio Pictures
 
Na Itália pós-Segunda Guerra uma jovem lituana casa-se com um rude pescador, que a leva para viver na sua ilha natal aos pés de um vulcão, Stromboli. E este é o título do filme, acrescido de "Terra di Dio", dirigido por Roberto Rosselini, em 1949, um dos melhores exemplares do cinema neo-realista. A fotografia crua, os enquadramentos simétricos, a beleza nórdica de Ingrid Bergman sob o sol insular.

O músico brasileiro Alvin L., numa homenagem ao cerne poético que o filme e a personagem exprimem, compôs a bela canção "Stromboli", que Marina Lima gravou em 93: "E ela dançando à beira do abismo, e ela dançando à beira do vulcão..."

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

ensaio sobre a cequeira


Em Brasília, o filme sobre o amor entre o escritor Saramago e a jornalista espanhola Del Río, "José e Pilar", foi jogado na pior sala de cinema, Arco Íris Liberty, que apesar desse nome pomposo, é minúscula, cadeiras desconfortáveis, tela rente à primeira fila, odor insuportável de mofo e esquecimento. 
Para completar o descaso, em dois únicos horários noturnos, num shopping decadente e inseguro.

24 quadros por segundo

 
 ScanFoto/AFP/Getty

"Para mim, filmar é uma ilusão planejada nos mínimos detalhes."

Ingmar Bergman, na foto, de 1957, durante as filmagens de "Persona"

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

outras palavras

foto images.uncy.org

"Se os animais falassem, não seria conosco que iriam bater papo."

Millôr Fernandes

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

o cinema desconhecido

 
 foto Marcel Hartman

"Os filmes de Hollywood deseducam o público. Pior: eles mudam os conceitos do público. Hollywood faz o público pensar que todo filme deve ter artistas famosos, cenários grandiosos, efeitos especiais. Nos anos 1970, Hollywood produzia bons filmes, mas depois passou a criar para o mercado, com ideias que se repetem para ganhar dinheiro. Aí aparecem 'Superman 1,2,3', 'Homem-aranha 1 e 2'. Isso tudo deforma o público. Os mais novos, então, já crescem nesse ambiente de superficialidade. Esses filmes divulgam um estilo de vida: ganhar dinheiro, fazer sucesso. A qualidade de vida das pessoas não é o mais importante. Por isso tenho muito medo quando vejo o governo de um país financiamento filmes hollywoodianos."

Lúcida reflexão do cineasta malaio Tsai Ming-Liang, em passagem pelo Brasil, acompanhando a mostra "O homem do tempo", promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), com apresentação de seus principais filmes, entre eles os ótimos "O rio" (He liu), "O buraco" (Dong), o recente "O sabor da melancia" (Tian bian yi duo yun), e mais curtas, médias, filmes para TV e documentários sobre esse "diferente" diretor.

Tsai é conhecido (ou desconhecido) pelos seus filmes lentos, sem nenhuma música, roteiros que não seguem tramas convencionais. Há momentos que lembram Michelangelo Antonioni, não por acaso uma de suas referências. Ele manifesta sempre sua admiração por Francois Truffaut, especificamente "Os incompreendidos" (Les 400 coups), de 1959.

Não troco um segundo de take de Ming-Liang por uma bobagem tridimensional como "Avatar", uma tolice tríplice como "Comer, rezar, amar", uma viagem infanto-xamanista como "Harry Potter".

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

cinema sem palavras

 filme Divulgação
A história de uma amizade sem duelo de palavras, é o que diz a sinopse do excelente curta-metragem "A mula teimosa e o controle remoto", produção paulista dirigida por Hélio Villela Nunes.

O filme não tem diálogos, e diz muito mais do que outros veborrágicos que tagarelaram na tela do Festival de Brasília.

De longe, o melhor curta exibido na mostra competitiva. O juri, pelo menos, reconheceu a atuação impecável dos dois garotos, Ícaro Teixeira e Vinny Azar, e dividiu o prêmio de Melhor Ator 

Salva-se o bom senso da premiação paralela: Canal Brasil e Crítica deram o prêmio de Melhor Filme.

o cinema ignorado

 fotos VideoFilmes

Lamentavelmente o filme de Eryk Rocha, "Transeunte" foi ignorado pelo "juri oficial" do Festival de Brasília. Único longa concorrente que é Cinema na essência, não ganhou o prêmio principal. Somente Melhor Ator, o veterano Fernando Bezerra (foto acima) e um prêmio técnico, de som. Menos mal. Mas o filme é mais, caminha muito mais além 

Eryk Rocha

O juri decidiu por um outro filme que "privilegia produções ousadas e inventivas e consagra o trabalho de um estreante". Mas festival não é baile de debutante.