quarta-feira, 27 de outubro de 2010

não fui eu!

 foto Arquivo NV

Um grande equívoco que circula na internet, há muito tempo, é o poema atribuído a Jorge Luis Borges, "Instantes", que já vi também intitulado como "Momentos" ("se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros..."). Isso nunca foi dele! O estilo literário de Borges é outro, provocador, culto, avassalador, polêmico. Os versos do poema são até bonitos, otimistas, mas não é a literatura de Borges. Por mais contraditório que ele tenha sido, jamais se trairia em nenhum momento, nos últimos instantes. Ele nunca se arrependeu de nada.

É como se Saramago tivesse escrito "Diário de um mago", "O alquimista", e outros folhetins com métodos duvidosos de aprimoramento pessoal. O poema é de autoria de Nadine Stair, americana, e confirmado pela viúva do escritor argentino, Maria Kordama.

Não, Borges, não. Logo ele que dizia: "só aquilo que se foi é o que nos pertence."

terça-feira, 19 de outubro de 2010

um filme para não esquecer


"Qual o contrário do amor? O ódio? Muito óbvio. O contrário do amor é a perplexidade. E essa perplexidade só acaba com a volta de quem lhe deixou."

Essa de é uma das falas de "Como esquecer", primeiro longa de ficção de Malu De Martino, um dos mais inteligentes roteiros brasileiros que vi ultimamente, baseado no romance homônimo de Myriam Campello, autora  de outro ótimo livro, "Jogo de damas", lançado recentemente.

Em "Como esquecer", que estreou semana passada, nada sobra, nada falta. É impressionante a concisão narrativa, o ritmo dramático sem apelo, o desenvolvimento da ação sem artifícios, o desfecho em conjunção com o começo.

Ana Paula Arósio numa excelente - e surpreendente - interpretação, imprime elegância e substância à sua personagem Júlia, uma professora de literatura inglesa, que tenta esquecer o amor que se foi sem ao menos dizer adeus, a enigmática Antonia, que o espectador não vê, imagina pelas imagens de um video que as duas fizeram numa viagem a Londres. Há um pouco da literatura de Virginia Woolf na postura da personagem de Arósio. Há um pouco do espírito martirizado dos romances de Emily Brontë, escritora citada ao longo do filme, através de "O morro dos ventos uivantes".

Malu revela-se uma cineasta de extrema sensibilidade ao adentrar na complexidade das relações humanas, a partir do tratamento afetivo  do universo feminino, como pouco se viu no cinema brasileiro. Não é o amor lésbico a bandeira do filme: é o amor como sentimento predisposto ao ser humano, com suas promessas e armadilhas. Não é somente o abandono de uma mulher pela outra: é a condição em que uma pessoa é passível, com seu encanto e desesperança. Não é somente a relação carnal entre seres do mesmo sexo: é a sensualidade que independe de opostos, com sua volúpia e sentidos. Não à toa, a Júlia à deriva com saudades e lembranças diz "o esquecimento só se completa quando passa pelo corpo."

Alegro-me quando assisto a um filme tão bem feito. É o bom cinema, para não esquecer.

sábado, 16 de outubro de 2010

nem todos verão

Mais uma vez, a cada ano, escrevo aqui sobre o chatíssimo horário de verão. Há quem goste desse horário fictício. Eu não vejo vantagem, é tudo muito incômodo, e na escuridão em que acordo não enxergo a economia que o governo diz fazer a cada ano. R$ 4 bilhões, afirma o Ministério das Minas e Energia, valor que corresponde a investimentos necessários pra construção de uma usina hidrelétrica de médio porte.

Numa boa, eu gostaria muito de contribuir pra essa economia de megawatts, mas os bilhões aí poupados não têm correspondência com uma parcela na minha conta de luz. Ano passado nesse período forçado, de segunda a sexta, acendi abajur ao lado da cama, lâmpada do banheiro, do corredor, da cozinha... o que fosse pra iluminar o meu caminho de manhã cedo.

Por isso não entendo por onde se pratica essa economia com a adoção de um horário que desregula o cotidiano de milhares de pessoas, principalmente as crianças. Há umas justificativas de ordem técnica, como "redução que representa cerca de 50% da capacidade energética adicionada anualmente ao sistema de geração de energia elétrica"... Deu pra entender?

Hoje à meia-noite, moradores das regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste adiantarão  os relógios em uma hora. Amanhã o domingo amanhecerá tomate e anoitecerá mamão. Vocês que moram nas outras regiões da refazenda Brasil, não têm ideia que a chatice do recolhimento dessa hora é justamente o significado da palavra temporão.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

álbum de família

 foto Arquivo NV
 
O cineasta Roberto Rosselini, a atriz Ingrid Bergman e filhos.
A foto é de meados dos anos 50. Casados, comprometidos, Rosselini e Ingrid tiveram um caso durante as filmagens de "Stromboli", em 1948. Não se abalaram com o escândalo na Itália conservadora pós-guerra, divorciaram-se dos respectivos cônjuges traídos e juntaram os cetins.
Uma das meninas (gêmeas) é a atriz Isabella Rosselini.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

você que me diz a verdade com frases abertas


 foto Roach Studio

A amizade não exclui a sinceridade. Uma define a outra.

Amigo é quando a pessoa passa a existir dentro de você.

Se eu não posso falar dos seus defeitos, amigo, posso desconfiar quando você fala das minhas virtudes.
Se confrontar ideias é sinônimo de belicismo e dizer verdades a um amigo é decretar separação, é necessário repensar as amizades, e não recuar ideias e verdades.

Jean Cocteau dizia que "existem verdades que a gente só pode dizer depois de ter conquistado o direito de dizê-las." Eu achava que tinha conquistado esse direito com um amigo, ou "amigo".

Desde criança, quando comecei a assistir  "O gordo e o magro" não era somente a graça, o humor doce, ingênuo, que me fixava aos dois comediantes. O que igualmente me fascinava era o sentimento de amizade entre eles. Mesmo se eu lesse em alguma revista de cinema que os atores Oliver Hardy e Stan Laurel haviam brigado nos bastidores de filmagem, eu relevava, pois a pureza e a sinceridade na relação de amigos que eles passavam na tela eram maior que a realidade ou fofocas. Mas eu nunca soube de brigas da dupla. Eram amigos inseparáveis. 

Na biografia autorizada "Mr. Laurel and Mr. Hardy: An Affectionate Biography" escrita por John McCabe em 1961, há relatos de extrema sinceridade entre eles, um apontando os defeitos do outro, um dizendo o que achava que o outro precisava mudar. A amizade não se restringia a uma idealização dos personagens.

Quando Oliver (o gordo) adoeceu, em 1955, de um infarto, Stan ficou profundamente abatido, e no ano seguinte sofreu o que hoje chamamos de AVC. Recuperou-se, mas ficou novamente arrasado com a morte do amigo, em 1957. O Magro nunca mais se recuperou da tristeza. Parou de trabalhar e viveu até os 74 anos em um hotel na cidade de Santa Mônica, EUA, falecendo de um ataque cardíaco, em 1965.

À parte a consternação nos momentos finais dessa relação, o que é comovente é o carinho, o respeito, a tolerância, o desprendimento de orgulho pessoal que uniam dois amigos. 

Essas reflexões acima, e a lembrança dos simpáticos Hardy e Laurel, vieram-me nestes dias por conta de uma decepção que tive com uma pessoa a quem considerava um grande amigo. Mas agradeço a essa pessoa pelo aprendizado. Continuo com o respeito, admiração pelo seu trabalho e  o caráter virtuoso que ele também tem. Mas amizade não é um sentimento de afeição unilateral. É simétrico.