domingo, 29 de agosto de 2010

Duffy

foto Divulgação/A&M

A mídia equivocada dos tablóides de música está chamando a cantora galesa Duffy como "a nova Amy Winehouse". Não acho. Amy é única e incomparável, pelo seu talento como compositora e cantora, pelo seu comportamento na contramão da mesmice pop e retrô. É como se Amy, depois de sua explosão com ótimo álbum "Back to black" e escândalos regados a muitas doses e pitadas de veneno anti-monotonia, não vislumbrasse breves ousadias e um próximo terceiro disco pra arrebentar. Amy ainda vai aprontar muito, antes de ficar se banhando mais vezes numa praia do Caribe.

Aimee Anne Duffy, 26 anos, até evita comparações com Amy e decidiu usar apenas o sobrenome como nome artístico. Tem igualmente uma voz soul, mas com outro timbre e um estilo indie. Suas letras não refletem um tom autobiográfico como as canções de Amy. O disco de estréia, "Rockferry", lançado no Brasil no começo deste ano, é ótimo de se ouvir e dançar, puxado pelo single "Mercy". Duffy é talentosa, tem voz e luz próprias, não precisa de comparações, nem de substituir ninguém. Com seus modelitos sessentistas e sensualidade de boa menina, tem o seu espaço nos ipods da vida.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

o diretor e a cabeça a prêmio

 

"Estou passando por um momento terrível, uma semana muito angustiante. Não sei onde meu filme vai ser exibido, não sei se ele vai conseguir chegar ao público, não sei se vai ser abandonado no primeiro fim de semana. É muito triste.

O desabafo é do ator, e agora diretor, Marco Ricca, durante o lançamento do seu primeiro filme, o ótimo "Cabeça a prêmio", baseado no livro homônimo de Marçal Aquino.

Assisti ao filme acompanhado de minha doce cara metade, num shopping em Brasília. Quando entramos, o funcionário que pegou os ingressos avisou pelo rádio ao projecionista "entraram duas pessoas". E para nós, com "exclusividade", o filme foi exibido. Curiosamente, passaram dois trailers de filmes nacionais, "Tropa de Elite 2" e "Nosso Lar", que com certeza não terão sessões apenas para duas cabeças a prêmio: o violento e realista que dá sequência a uma das maiores bilheterias do cinema brasileiro,  e o outro que dá continuidade a uma linha de produções de temática espírita, iniciada com "Bezerra de Menezes".

Assistir a um filme com a sala vazia, dá uma certo "conforto" de não ser incomodado pelo cara do lado que não desliga o celular, ou pelo casal que conversa como se estivesse vendo novela. Mas é um conforto que não me agrada, ao contrário, entristece. Principalmente quando é um filme brasileiro. Assim como o diretor do filme, gosto de ver a sala cheia, todos de olho na tela. Marco Ricca, que já filmou aqui com João Batista de Andrade, e tem uma ligação afetiva com a cidade, diz que seu filme "lembra muito a luz de Brasília, é amarelada, tem a imensidão do céu, a terra vermelha, a poeira", e acha que "o filme vai pegar em Brasília". Não sei como está sendo a bilheteria nas outras cinco salas onde "Cabeça" foi lançado na sexta-feira passada. Torço para que os espectadores se multipliquem e o filme pegue como o cineasta deseja e o bom cinema merece.

 fotos Ricca Produções

"Cabeça a prêmio" tem uma narrativa seca, precisa, quase minimalista, o que foi um desafio para um diretor estreante, pois a história de certa forma requer ação, um determinado suspense. É um triller com traição, assassinatos, fugas, ambientado numa paisagem desértica, entre o pantanal e o cerrado, entre cidades pequenas e fronteiriças, entre bons nos lugares errados e maus em lugares piores. A trama se desenvolve em três núcleos, tendo como ponto centralizador uma família de poderosos percuaristas metida com negócios ilicítos. A dissolução dessa estrutura "próspera" começa com o envolvimento da filha  do patriarca com o piloto de avião que lhe presta serviços perigosos. Uma dupla de matadores personifica o conflito e a violência. O grande mérito do roteiro e direção segura de Marco Ricca é a narrativa concentrada em planos cuidadosamente elaborados, em câmeras paradas e enquadramentos que incorporam o mundo interior dos personagens, e consequentemente a reflexão do drama em que estão envolvidos. Não há movimento histérico de câmeras na mão, e sim o desenho preciso do deslocamento que acompanha os personagens dentro de uma ação que eles constroem. A narrativa é seca na composição, mas grandiosa na observação, simétrica na relação ação-personagem.

O livro de Marçal Aquino, lançado em 2003, é muito mais complexo, com muito mais dramas, personagens e entrelaçamentos. A adaptação para o cinema foi corajosa e perfeita em saber condensar em menos de duas horas angústias e tragédias interiores. É inevitável a lembrança de Beto Brant de "Matadores" e "O invasor", este protagonizado por Ricca, e também extraídos da literatura policial de Aquino.  Apenas lembrança: o diretor colocou em "Cabeça a prêmio" sua marca, sua maneira particular de contar uma história. E escolheu o elenco adequado para cada papel: Alice Braga, Fulvio Stefanini, o uruguaio Daniel Hendler, Otávio Muller, Cassiano Gabus Mendes, Via Negromonte, Ana Braga, e até mesmo Eduardo Moscovis, que se esforça para demonstar o assassino silencioso e atormentado.

domingo, 22 de agosto de 2010

assim seja

   Padrasto Nosso

Elvis Presley que estais no céu
muito escutado seja Bill Haley
venha a nós o Chuck Berry
seja feito som à vontade
assim como Hendrix, Sex Pistols e Rolling Stones.
Rock and roll que a cada dia melhora
escutai sempre Clapton e Neil Young
assim como Pink Floyd e David Bowie
Muddy Waters e The Monkeys.
E não nos deixar cair o volume do som
quando ouvirdes Black Sabath
mas livrai-nos do axé.
Amém!

Pedro Saulo de Souza, poeta brasiliense, em seu livro "Turnê de sentidos"

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

manhã de quinta

foto Riztam Telve

Mortal que sou, não posso ignorar nem escapar do tempo. Fui ontem, sou hoje, mas não "tenho" futuro: sou futuro.

É perigoso eu dizer "sou o que tenho". Isso me dá a sensação de que preciso de ter mais, mais, mais...
Sou o que sou.

Cultivar mágoa é como tomar veneno e esperar que o outro morra.

Os pioneiros tendem a ser ignorados no começo.

Esta manhã de quinta-feira é parcela de minha eternidade. Não haverá outra igual. Eu lapido o meu tempo.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

quando eu me chamar saudade

 foto Arquivo NV
 
"Foi sacanagem a forma que me expulsaram do Itamaraty!", desabafou o poeta Vinicius de Moraes, lá pelos anos 70, a respeito de sua saída compulsória, definitiva e sumária dos quadros do Ministério das Relações Exteriores na época da ditadura.

Após 26 anos de serviços prestados ao Itamaraty, o poeta foi "aposentado" pelo regime militar em 1968, já como resultado da promulgação do AI-5. O general-presidente de plantão, Costa e Silva, exigia o desligamento do serviço público de "bêbados, boêmios e homossexuais". Brincalhão, Vinicius disse "eu sou o bêbado." O ministro Magalhães Pinto foi curto e grosso: "demita esse vagabundo!"

Com a exoneração o poeta ficou muito magoado e deprimido. Extravasou seus sentimentos na poesia e na música. Na língua nagô a expressão "na tonga da milonga do kabuletê", gravada em 1970 em parceria com Toquinho, significa algo como "vão todos à merda!" Curto e diplomático.

Hoje, em Brasília, o poeta será promovido pelo chanceler Celso Amorim à condição de Embaixador do Brasil, com a presença de parentes e amigos, como a cantora Miúcha. 

Em algum cantinho, em bom lugar, o nosso eterno poetinha deve estar curtindo, com seu uisquinho, essa tardia reparação, embora ele nunca  tenha deixado de ser o que lhe tomaram, pois dizia-se "eu, o capitão do mato, Vinicius de Moraes, poeta e diplomata." 

A benção, meu mestre.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

a solidão mora ao lado

 foto Lenise Pinheiro
 
Semana passada uns amigos de São Paulo me escreveram indicando a peça "Êxtase" que iniciou temporada no CCBB de Brasília dia 4 e segue até 26 deste mês. Eu iria de qualquer jeito: não somente pelo texto do dramaturgo e cineasta inglês Mike Leigh, escrito em 1979, e inédito no Brasil, como também pela proposta da montagem do diretor Mauro Baptista Vedia e pelo elenco que reune sinônimos de talento dos palcos paulistanos.

A peça é uma tragicomédia sobre o cotidiano de trabalhadores imigrantes britânicos ambientado nos final dos anos 70. Quatro amigos encontram-se e conversam sobre intimativa do passado, a afirmativa do presente e nenhuma estimativa de futuro, fumando sem parar, entupindo-se de cerveja, gim e Elvis Presley nas veias, com um pouco de tablete platinado de Dolly Parton pra edulcorar.

A grande sacada da direção é a narrativa hiperrealista, incorporando no palco a linguagem cinematográfica, com cortes e pausas que delineiam com exatidão o intimismo e simultaneidade cênica.  A platéia sente os poros dos personagens, a pulsação dos silêncios que pontuam diversos momentos. Não há como não deixar de ser voyeur naquela situação, naquele espaço e solidário naquela angústia. A intimidade é latente, nunca incômoda, até mesmo quando nos joga na cara o cretino que existe dentro de nós. O que é engraçado vem com a reflexão. O riso não é gratuito. Os personagens  são indisfarçavelmente impregnados de solidão, esse bicho extremo a que estamos sempre vulneráveis. São quatro amigos de longa data, distintos em seus sofrimentos, contaminados por uma indisposição afetiva, e ameaçados por um nada heideggeriano. Mas se tornam próximos quando buscam uma saída, quando tentam uma solução para o que lhes devasta. Impossível não nos identificávamos com um pedaço de cada um deles, por admiração ou rejeição. Não gostamos de ver no outro aquilo que não aceitamos em nós.

Mauro Baptista Vedia com a intuição que sempre caracteriza e conduz a habilidade dos latentosos, soube escolher o elenco para literalmente encarnar seus personagens. Cada um tem sua composição e brilho muito particular: Amanda Lyra com a estritente, coreográfica  e espirituosa Di; Mário Bortolotto num papel acertadíssimo com seu jeito de beatinik falastrão para o espaçoso Mick;  Eduardo Estrela a própria imagem do britânico contido em Leo, num  visual pré-nerd com seus cabelos escorridos na testa e óculos de grau; as participações rápidas e precisas de Francisco Eldo Mendes e Fernanda Catani, vivendo, respectivamente, Leo, o amante circunstancial,  e Val, a esposa barraqueira quebra-cama...  e ouso cometer aqui a indelicadeza ao restante do elenco para destacar a interpretação de  Erika Puga, que abre, se dilacera em câmera lenta e fecha a peça com sua personagem Jane. A cada gesto, a cada pausa, e até mesmo quando ela canta, vê-se seus sonhos em pedaços no chão. O cenário dessa comédia de incidentes e desenlaces, às vezes minimalista, às vezes compulsiva, é o quitinete onde Jane mora, ou encontra-se consigo, como um oratório às avessas a espalhar e expiar sua solidão. Não à toa, no final, ela explode em choro nos braços do amigo, expondo os fragmentos de sua vida.
Assim como conhecer a personagem Jane na pele da atuação magistral de Erika Puga, fica dificil imaginar outra montagem com outros atores. 

Não se sai incólume de "Êxtase". Ainda bem.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

morte misteriosa

 foto Ed Ferreira/AE

Morreu no dia 26 de julho o escritor curitibano Yves Hublet, aquele da certeira bengalada em José Dirceu, quando o então deputado federal, em 2005, saía do plenário da Câmara após depoimento sobre a crise do mensalão.

Belga de nascimento, o escritor tinha 72 anos, e voltava do seu país quando foi preso no aeroporto em Brasília, faleceu na cadeia, e seu corpo cremado.

Mais detalhes dessa morte misteriosa aqui: http://bit.ly/9K0V6l

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Little Boy


Lembro-me que em 2007 o Ministro da Defesa japonês, Fumio Kyuma, disse que era “inevitável” que os Estados Unidos lançassem duas bombas atômicas sobre o Japão durante a Segunda Grande Guerra Mundial. Isso teria evitado que a União Soviética entrasse também na batalha do Pacífico. Mas o que é isso, sr. Kyuma? Pelo amor de Buda!

O cara com seus olhinhos miúdos e raciocínio idem, considerava, e deve pensar ainda, que as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki conseguiram “acelerar o fim da guerra”. Essas declarações absurdas repercutiram muito mal entre os sobreviventes e seus descendentes, claro, e incomodaram o primeiro-ministro, Shinzo Abe.

Há exatos 65 anos, às 8h15 do dia 6 agosto de 1945, a bomba "Little boy" foi lançada sobre a cidade de Hiroshima, matando instantaneamente cem mil pessoas. O local de 350 mil habitantes tinha um porto militar insignificante. Não havia necessidade para o ato. O Japão já estava derrotado, sem condições para a continuidade da guerra, com fábricas militares destruídas. E o sr. Kyuma vem com um papo desse!

Do outro lado, onde o império sempre atira primeiro e pergunta depois - quando pergunta -, as justificativas são igualmente doentias. Ao longo dessas seis décadas do lançamento das duas bombas pelo governo dos EUA, é cada vez mais repudiante a conversa dos americanos para esse genocídio.

Theodore "Dutch" J.Van Kirk, era major-aviador do avião Enola Gay, bombardeiro B-29 que lançou a coisa. Deve está com mais de oitenta anos. Do alto da sua senilidade arrogante, não se arrepende do que fez, e dizia que passou um bom tempo se preparando para o momento, e que "foi uma das missões mais fáceis" da sua vida. Esse senhor do voo da morte, pelo que li recentemente, vive em um luxuoso asilo na Geórgia, lustrando as 15 Medalhas Aéreas que ganhou após a "missão". Deve receber sempre a visita do tal ministro japonês para um chazinho verde com cookies...

O bombardeio sobre o Japão foi o maior ataque terrorista da história. No mínimo 50 vezes mais letífero que o 11 de setembro de 2001. Muitas imagens dos efeitos do cogumelo de fogo ficaram na lembrança de todos. Imagens como essa foto do garotinho chorando entre os destroços. Garotinho, que ironicamente é a tradução literal do nome da bomba.

Vinicius de Moraes traduziu bem o que resultou da estupidez humana em seu poema "Rosa de Hiroshima", que Gerson Conrad, do grupo Secos e Molhados, musicou em 1973:

Pensem nas crianças
mudas telepáticas
pensem nas meninas
cegas inexatas
pensem nas mulheres
rotas alteradas
pensem nas feridas
como rosas cálidas
mas oh não se esqueçam
da rosa da rosa
da rosa de Hiroshima
a rosa hereditária
a rosa radioativa
estúpida e inválida
a rosa com cirrose
a anti-rosa atômica
sem cor sem perfume
sem rosa sem nada.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

civilização posterior

 
"Depois de Atenas, após a Renascença, estamos agora entrando na civilização do traseiro."

Do visionário Jean-Luc Godard, em seu filme "Pierrot le fou" (no Brasil, "O demônio das onze horas"), de 1965!