terça-feira, 30 de março de 2010

memória do tempo


"Quando tiramos uma foto, ela para o tempo e se torna uma espécie de cadáver."

"Eu diria que a fotografia não substitui o tempo, mas é a memória da história. Essa é sua vocação, ela não inventa as coisas. Podemos até inventar, mas aí a fotografia se torna um documento de nossas invenções. A foto serve, basicamente, ao deus cronos."

"Olho para os interiores como evocadores da psicologia interna pessoal das pessoas que ali moraram. Mesmo que não haja personagens, existem os traços de suas personalidades."

"Se os interiores são metáforas da alma de uma pessoa e a cidade, da coletividade da alma, Brasília é o desejo de criar uma nova vida."


Robert Polidori, fotógrafo canadense. Como bem definiu a reportagem do Correio Braziliense de hoje, há algo de surreal, datado, hiperrealístico e assustador em suas fotografias.

Em Brasília, a exposição "Retrospectiva" está no Espaço Cultural Contemporâneo.

sábado, 27 de março de 2010

e o vento vai levando...

Hoje Renato Russo faria 50 anos. Gosto de várias letras que ele compôs, entre elas "Acrilic on Canvas", que chega à perfeição poética. A música está no melhor disco da banda, "Dois", de 1986.

Mas tem uma música em cd posterior, o "V", de 1991, que me toca mais profundamente. Há uma beleza triste (ou uma tristeza bela?) na música que me cativa. "Vento no litoral". Se Renato tivesse composto somente essa música eu já me daria por satisfeito. Mas ele deixou muito mais.

sexta-feira, 26 de março de 2010

pássaro formoso

 
"O romance do Pavão Mysterioso", primeiro e um dos melhores disco do cantor e compositor Ednardo, lançado em 1974, foi reeditado por Charles Gavin, baterista do Titãs, que faz um belo trabalho de pesquisa e divulgação da boa música brasileira.

O jornal Diário do Nordeste publicou na edição de ontem uma matéria com o cantor, que se encontra em Fortaleza para a divulgação de um cd e um livro sobre a Massafeira Livre, evento realizado em março de 1979, no Teatro José de Alencar, que reuniu mais de quarenta artistas, num "grande ajuntamento de som, imagem, movimento e poesia", como diz na contracapa do LP duplo lançado no ano seguinte.

Sobre o "Pavão", o relançamento é mais do que oportuno. Não pelo fato de a faixa-título, trilha de abertura da novela "Saramandaia", em 1976, ter projetado nacionalmente o trabalho do compositor cearense, mas por ser um disco emblemático na música que o Pessoal do Ceará fazia naqueles anos de chumbo, e se espalharia por todo o país.

A discografia de Ednardo precisa ser redescoberta. Como um menestrel, ele cantou as belezas das praias alencarinas, reverenciou personagens da história cearense; encantou-se com a sensualidade das mulheres, musas, e damas de peitos gostosos rosados doces; ergueu pelos palcos e praças em novas percussões as tradições do Maracatu já em busca da batida perfeita; pisou com todo o respeito em suas canções o chão sagrado dos sertões; expressou em versos e acordes a esperança e a saudade dos que descem para o sul-maravilha; procurou no fundo dos olhos do povo a linda pastora do tempo; venerou em banho de água sangria a lembrança dos companheiros do Araguaia; ficou inutilmente bêbado e triste como um peixe afogado para adiar uma briga de amor, porque ele sabe que primeiro se deve viver que é pra depois poetar.

Que a música de Ednardo continue em cds, ipods e downloads, pra menina meia distraída, repetir a sua voz. Porque cantar parece com não morrer.

terça-feira, 23 de março de 2010

B. B. King of the blues



fotos Cris Pereira

Show do B.B. King ontem em Brasília. Comovente! Emocionante! Inesquecível!

A lenda do blues a poucos metros dos meus olhos e ouvidos a dentro. Além do carisma, voz e sorrisos do mestre nos seus firmes 84 anos de idade, a competência, simpatia e elegância dos oito músicos do B. B. King Blues Band.

sexta-feira, 19 de março de 2010

o rapaz de Memphis


O cantor e guitarrista americano Alex Chilton sempre foi subestimado no cenário do rock americano. Pelo resto mundo até desconfio que pouca gente conhece seu trabalho.  Líder das bandas Box Trops nos dourados anos 60, e à frente do Big Star de 1970 até estes anos 2000, e mesmo na estrada em carreira solo, o músico influenciou grupos como R.E.M e o Replacements, que têm seus méritos nos sons dos anos 80.

Alex Chilton tinha apenas 59 anos e partiu antes de ontem pra outros concertos.
O rapaz que despontou nas rádios de Memphis, sentiu dores fortes no coração, e internado em New Orleans, onde nos anos 90 aproximou-se do jazz, não resistiu ao ataque cardíaco. 

Fica um solo solitário.

Dois videos em momentos distintos de Alex Chilton:

http://www.youtube.com/watch?v=fAtb65Z_bkA

quinta-feira, 11 de março de 2010

sinhá moça em Pirenópolis

 
A atriz Eliane Lage, que encantou o cinema brasileiro com seu talento e beleza nos anos 50, vive há trinta anos na bucólica Pirenópolis, cidade histórica do interior goiano, a 100 quilômetros de Brasília.

Ela será homenageada no próximo sábado, 13, durante a 2ª Festa Literária de Pirenópolis, a FLIPIRI, evento criado nos moldes da FLIP, em Parati (RJ), claro, bem mais modesto, mas extremamente aconchegante, simpático, tanto pelo espaço aprazível da cidade quanto pelos convidados. Nessa segunda edição, entre mais de vinte autores de várias regiões do país, estarão presentes o médico e escritor gaúcho Moacyr Scliar e o jornalista e escritor paulista Ignácio de Loyola Brandão, que presidirá a homenagem à atriz.

Ao contrário do que se possa imaginar, Eliane Lage não vive "exilada" na pequena Piri. Aos 81 anos, e encantando com sua beleza viscontiana, exala a paz de quem viveu tudo a seu tempo. O passado, os seus cinco filmes, seus prêmios, tudo convive em serenidade com seu presente. Há uma tranquilidade d'alma e uma beleza apaixonante no olhar dessa senhora, que gosta de roça e do céu de Brasília. As lembranças para ela é um lugar seguro. Como segura é sua casinha em Pirenópolis. Ali ela agasalha seu tempo. De lá viaja para festivais de cinema, para o mundo, de Goiânia a Cannes.

Na feira literária, além da exibição de seus filmes, Eliane autografará a biografia "Ilhas, veredas e buritis", que lançou em 2005. É um volume de mais de 300 páginas, imprescindível não somente para conhecer a vida e trajetória de uma grande atriz, que soube se renovar a cada ciclo, como também um relato importante para a história do cinema brasileiro. 

A foto acima é do filme "Caiçara", dirigido por Adolfo Celi, em 1950. Ambientado no litoral paulista, Ilhabela, o drama tem forte influência neo-realista. Foi a primeira produção da Companhia Vera Cruz, e narra a história de uma jovem que se casa com um homem autoritário em uma aldeia de pescadores. Gosto muito do filme. Embora se perceba nele uma estrutura emprestada de uma cinematografia estrangeira, há uma brasilidade, uma realidade nacional existente.

segunda-feira, 1 de março de 2010

o homem que amava os livros

 foto Arquivo NV
 
"Sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de livraria."

A frase é do escritor argentino Jorge Luis Borges, mas cabe muito bem a outro grande homem, o bibliófilo José Mindlin, falecido ontem aos 95 anos.

Criador da mais importante biblioteca privada do país, em 2006 Mindlin doou sua coleção para a Universidade de São Paulo, com 60 mil volumes.