sexta-feira, 6 de julho de 2007

o doce bárbaro

foto Leão Serva

"Panaméricas de Áfricas utópicas, túmulo do samba / mais possível novo quilombo de Zumbi”, “Maurício Lucila Gildásio Ivonete Agrippino Gracinha Zezé / gente espelho da vida doce mistério”, nestes dois versos, respectivamente das músicas “Sampa” e “Gente”, de Caetano Veloso, há homenagens explícitas ao escritor, dramaturgo e cineasta José Agrippino de Paula. O Agrippino citado no segundo verso, é autor do livro “PanAmérica”, publicado em 1967, que praticamente deu uma guinada diferente na literatura brasileira naquela década de mudanças pelo mundo todo. O livro de forte incidência pop, ou para ser mais preciso àqueles tempos, representativamente beat, narra as maluquices e casos amorosos de um cineasta enquanto tenta filmar nada menos nada mais do que “A Bíblia Sagrada”, colocando no elenco nomes como John Wayne, Marilyn Monroe, Burt Lancaster, Charles De Gaulle, entre outros, e eles próprios interferindo na construção das cenas. Viagem lisérgica total, situemos assim.
Mas essa mistura desvairada com personagens reais da cultura norte-americana é, na verdade, uma crítica muito bem armada sobre a sociedade de consumo. Caetano Veloso dizia que o livro parecia a “Elíada”, do poeta grego Homero, narrada por Max Cavalera, ex-vocalista do Sepultura. É uma boa semelhança entre coisas diferentes. O fato é que Agrippino soube como pouquíssimos captar – e viver na pele – o século XX no que ele teve de mais representativo no ser humano e seus signos.


“PanAmérica” foi reeditado em 2001, pela Papagaio Editora, que relançou há dois anos o primeiro livro de Agrippino, “Lugar público”, originalmente publicado em 1965. A editora está reunindo toda a obra literária desse mito underground, que compreende contos, ensaios, peças de teatro, roteiro de shows musicais, romances inéditos e textos dispersos.

Agrippino viajou de vez: faleceu antes de ontem, de infarto fulminante, sem tempo para completar 70 anos de idade no próximo dia 13. Vivia em exílio voluntário em Embu das Artes, na Grande São Paulo, desde o começo dos anos 80, esquecido do mundo, que tanto observou. Desde então teve uma vida difícil. A cabeça não segurou a barra e sofria de esquizofrenia.

De tanto lembrar do escritor, por pouco esqueço aqui que inicialmente conheci o Agrippino cineasta, diretor do muito comentado e pouco visto “Hitler Terceiro Mundo”, seu único longa-metragem, de 1968, o mais radical do cinema alternativo que já vi. Pode-se gostar ou não desse filme ou do gênero, mas não dá para ficar indiferente a um trabalho que marcou época e influenciou outros diretores. Não conheço os seus vários curtas-metragens rodados em bitola super-8, mas imagino a linguagem inovadora que apresentam esses trabalhos.
Como nós brasileiros temos essa estranha cultura necrófilica, espero que o lado positivo dessa mania faça aparecer aos interessados a filmografia desse genial desconhecido. Num artigo que tenho nos meus arquivos, publicado numa edição da Folha de São Paulo em 1984, o Museu da Imagem e do Som divulgava a exibição do longa, dentro da mostra “O cinema e a história do Brasil”. Que se faça agora uma mostra completa de seus filmes.


Em 1976, Caetano e o então inimaginável ministro Gilberto Gil musicaram alguns trechos do livro “PanAmérica”. Estão lá na canção “Eu e ela estávamos ali", faixa 1 do cd 2.

À falta de imagens recentes, a foto acima foi escaneada do referido artigo de 1984.

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